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Número 794,

Cultura

Bravo!

A paródia da discórdia

por Rosane Pavam publicado 05/04/2014 05h43, última modificação 05/04/2014 07h26
Redes sociais veem apologia do estupro em texto satírico de 1917. Por Rosane Pavam
Roger-Violli/AFP
Louÿs

O escritor belga Pierre Loÿus, o libertino que foi confundido com sua verve literária

Se um vagabundo a encontrar num local deserto e a agarrar, deixe que ele a foda de uma vez. É o meio mais seguro de não ser estuprada.” A frase, que adentrou as redes sociais no dia 31 e foi repercutida por sites como o Think Olga, parecia comprovar o acerto da pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, segundo a qual o brasileiro liga o estupro ao mau comportamento das mulheres. Contudo, quem a escreveu, o belga Pierre Louÿs (1870-1925), um amigo do escritor André Gide e do compositor Claude Debussy, o fez muito tempo antes, em 1917, para o Manual de Boas Maneiras para Meninas, uma paródia aos guias de etiqueta feminina da época. Publicado no Brasil em 2006 pela Azougue Editorial dentro da Coleção Devassa, patrocinada pela cervejaria homônima, o livro foi ressuscitado em tom de causa por blogs e feministas.

“Expliquem essa apologia ao estupro”, clamou o Think Olga pelo Twitter, à Azougue e à Devassa. O editor Sergio Cohn disse em sua página no Facebook que aquele era um clássico da literatura libertina mundial e que o destaque de um trecho de “forma absolutamente parcial”, de modo a incitar a censura ao livro, o fazia lembrar “períodos sombrios da nossa história”. A Devassa, por meio da Brasil Kirin, que detém a marca desde 2007, eximiu-se da responsabilidade sobre o episódio, em comunicado no qual afirmou repudiar “qualquer ato discriminatório ou ilícito”. No dia 2, Cohn informou em sua página que o Think Olga o procurara via inbox para se desculpar por seu post, que qualificara como um “mal-entendido”. “Solicitei que a retratação fosse realizada publicamente, assim como o ataque. Seria uma atitude digna, vamos esperar”, escreveu o editor.

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