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Número 793,

Cultura

Refô

Vai entender!

por Márcio Alemão publicado 02/04/2014 02h45
Sabe aquele dia em que a comida, o vinho, nada nos encanta?
Joddi Pudge/Getty Images
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O dia em que os sentidos se embaralham e o que vemos não nos encanta. "Tampouco o que ouvimos, lemos, comemos e bebemos" diz Márcio Alemão, em sua crônica

É o dia. Não consigo encontrar melhor explicação. É o dia. Os sentidos se embaralham. Melhor que isso: ficam emburrados. O que vemos não nos encanta. Tampouco o que ouvimos, lemos, comemos e bebemos.

Um vinho de 1997. Um vinho tido como muito, muito bom. Um barbaresco, Prunotto Bric Turot. Abri, tomei e não gostei.

Por partes e mais lentamente.Domingo espetacular. Cinzento e com amena temperatura. Cenário raro
para os paulistanos nos últimos três meses, apesar da minha sensação temporal sugerir que foram três sé­culos de impiedosa canícula. O vinho estava na adega climatizada. Rolha preservadíssima.

Água, azeite e sal na panela de ferro e sêmola de milho em chuva. Fazia tempo que não usava a sêmola de milho nacional. A italiana ainda é melhor, mas o resultado foi mais do que satisfatório. Digo mais: para se comer fria, em fatias, ainda prefiro a polenta feita com a sêmola nacional. Mas quem estaria interessado em fazer polenta para comê-la fria em fatias?

Em outra panela, um molho de cebolas, tomates frescos e linguiça-calabresa. Tomates frescos com linguiça- calabresa é uma combinação infernal, ou divina. Você escolhe o adjetivo.

Acrescentei erva-doce ao molho. Sementes. A linguiça era uma Wessel. Muito boa. Recomendo.

E nada se frita. Azeite, muitas cebolas em finíssimas fatias, a linguiça sem pele, as sementes de erva-doce, meia pimenta dedo-de-moça bem picada, sem sementes e fogo baixo. O tomate maduro é batido no liquidificador com azeite. Ele se junta à linguiça quando esta já estiver pronta, cozida. E passam a noite juntos, no frio.

E por que o vinho não me deixou feliz com esse prato? Um naco de grana padano antes. Nada. O vinho lá estava, poderoso, sem, no entanto, me impressionar. Pão italiano com bom azeite, mais um gole e comecei a ficar irritado.
Mexia a polenta, roubava um colherada e dava mais um gole. E aquele vinho, acredite, começou a me aborrecer. Com a polenta já casada com o molho, a presença do barbaresco não estava mais sendo suportada. É o dia, expliquei. Não me leve a mal.

Guardei o muito que sobrou e no dia seguinte fizemos as pazes. Era de fato o dia. E aquela polenta terminou sendo harmonizada com um gole de soda limonada. Pronto, falei.

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