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Número 793,

Internacional

Europa

Derrota amarga

por Gianni Carta publicado 29/03/2014 09h14, última modificação 31/03/2014 10h01
Batido inexoravelmente no primeiro turno das municipais, Hollande confirma-se como o presidente mais impopular. Por Gianni Carta, de Paris
Patrick Kovarick/AFP
frança

Nas eleições municipais realizadas na França, ficou claro que Hollande enfrenta momento de grande impopularidade

De Paris

Que fazer, François Hollande? Tal a questão para o presidente da França na esteira de uma extraordinária surra levada pelo seu Partido Socialista no primeiro turno das municipais de domingo 23. O revés há de ser encarado de três pontos de vista. Primeiro: houve uma abstenção recorde de 38%. Esta significativa fatia da população rejeita o sistema político capitaneado por Hollande, cujo partido ficou com 38% dos sufrágios. Segundo: a própria vergonhosa derrota do PS diante da conservadora União por um Movimento Popular (UMP), que alcançou 48% dos votos. Abissais as fissuras desta agremiação, dividida entre dois líderes, e é grande surpresa que tenha tomado a dianteira. Terceiro: é ainda mais alarmante o fato de que a Frente Nacional, a legenda de extrema-direita de Marine Le Pen, tenha abiscoitado 5% dos votos. Não parece um porcentual elevado à primeira vista. Considere-se, porém, que Le Pen apresentou candidatos em menos de 600 dos 36 mil povoados, vilas e cidades, incluídos na eleição, e o sucesso da FN fica claro.

Além disso, o prefeito eleito com 50,26% no primeiro turno em Hénin-Beaumont, cidade ao norte e bastião socialista um século a fio, é Steeve Briois, secretário-geral da FN. Nunca um político do partido havia sido eleito na V República. A Frente, com sua retórica anti-imigração e anti-União Europeia, é agora a terceira força a níveis local e nacional. Em 2002 o pai da Marine Le Pen, Jean-Marie, chegou ao segundo turno das presidenciais. Dez anos mais tarde, Marine Le Pen obteve 18% dos votos. No segundo turno das municipais no domingo 30, a legenda extremista disputará 230 municípios. Segundo as pesquisas, poderá eleger prefeitos em cidades simbólicas como, entre outras, Avignon, Perpignan, Frejus, ao sul, e Forbach, ao nordeste. Fala-se na onda bleu Marine, trocadilho para o nome da líder da FN e a cor azul-marinho. “É o fim da bipolarização da cena política”, resumiu Le Pen. O estrago será ainda maior no escrutínio em maio, quando, segundo as previsões, a Frente deverá se tornar a primeira agremiação francesa no Parlamento Europeu.

Esse foi, é importante acentuar, o primeiro teste de Hollande, o presidente mais impopular da V República, desde sua eleição em 2012. Com o nível de desemprego em ascensão, poder aquisitivo em queda livre e crescimento insignificante, em janeiro Hollande confessou que é um social-democrata, eufemismo para liberal. O presidente não combaterá a crise econômica com programas para gerar consumo e crescimento, como prometera durante sua campanha. A nova estratégia econômica de Hollande passou a ser a implementação de programas de austeridade, a única opção proposta por Bruxelas para tirar da crise países da Zona do Euro.

Fabrice Rousselot, editorialista do diário esquerdista Libération, contemporiza. “Respeitar certa austeridade não implica condenar definitivamente um programa de relance e fechar as portas, por exemplo, a uma transição ecológica portadora de crescimento.” Hollande também não fala abertamente em redução de impostos sobre a receita, mas a medida deverá ser colocada em prática. De qualquer modo, Hollande, ao fechar um contrato de “responsabilidade” com o patronato e com Bruxelas fica sem margens de manobra. Além do mais, precisa reduzir o déficit para satisfazer também os mercados financeiros.

“A esquerda de Hollande abandonou deliberadamente os meios populares”, escreve Joshua Adel, do website Mediapart. O hollandismo, acrescenta, “é o continuísmo do sarkzysmo... para seduzir um eleitorado radical-chique sob o qual ‘o socialismo metropolitano’ se constrói a partir de agora”. De fato, o recente eleitorado do PS nas metrópoles tem sido as classes médias, ou bobos, os bourgeois-bohèmes. O Partido Socialista tem duas vertentes. Uma mais favorável à intervenção do Estado e a nacionalizações, oposta a uma ala social-democrata mais liberal liderada por políticos de peso como o ex-premier Michel Rocard e, atualmente, por Hollande.

Patrões e grandes empresários sempre votaram, é claro, em agremiações direitistas. No entanto, os trabalhadores, aos quais Hollande deu escassa atenção, passaram a votar em partidos como a Frente Nacional. Marine Le Pen soube limpar a imagem negativa da legenda herdada do pai. A FN não tem mais elos com grupos neonazistas, não nega a existência do Holocausto e, é evidente, vence onde a crise mais afeta a qualidade de vida dos cidadãos. Hénin-Beaumont, onde foi eleito Briois, é uma cidade de 27 mil habitantes, outrora valorizada por usinas têxteis, de metalurgia e por minas de carvão.

Com 21 mil almas, Forbach deverá ter um prefeito da FN, Florian Philippot, conselheiro e braço direito de Marine Le Pen. Obteve 35,75% no primeiro turno e está na dianteira. Com nível de desemprego de 22%, lojas fechadas, roubos e uma largamente midiatizada destruição de uma sede do McDonald’s em 2013, a cidade está repleta de imigrantes. A cidade nunca foi rica, mas antes garantia empregos em minas de carvão e em uma fábrica que produzia caixotes de cartolina. Philippot, como Le Pen, irrita-se quando chamam a FN de extremista ou de antissistema. Mais grave, no entanto, é que o PS e a UMP adotaram facetas e discursos semelhantes aos da Frente. Observe-se, por exemplo, como os socialistas lidam com a imigração. Quando Manuel Valls, o ministro do Interior, culpou e expulsou cidadãos roma para a Romênia, alegando falta de segurança, ele não se comportou como Le Pen? Longe da maioria dos habitantes das metrópoles, reina o extremismo.

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