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Número 793,

Sociedade

Cariocas

Defendendo o berço esplêndido

por Carlos Leonam — publicado 01/04/2014 04h46, última modificação 01/04/2014 10h25
Qual o problema de a Fifa dizer uma meia dúzia de verdades sobre o Brasil?
Reprodução
Cariocas

O texto, desconfio, foi escrito por um nativo, e não pelo Valcke. Afinal, é o que gostamos de dizer de nós mesmos

Um dia, estávamos no início dos anos 1960, meu pai chegou em casa, me chamou e disse: “Olha só o que a Civilização acaba de publicar. Vai ser um estouro! Embora o autor seja um baita picareta”. Papai era sócio-atleta da roda literária da Livraria Civilização Brasileira, na Rua do Ouvidor, e ganhara um exemplar de presente, antes que chegasse aos jornais e revistas.

Ele me passou o livro, Brasil para Principiantes, em que um certo Peter Kellemen, húngaro que vivia no Brasil fazia tempo, sacara os jeitinhos, mutretas, golpes e que tais dos nativos de Botocúndia. Ou seja, sacara o “levar vantagem em tudo”, que muitos anos depois seria chamado de Lei de Gerson, embora o Canhotinha tivesse entrado, como Pilatos, no Credo – no caso, num comercial de cigarros.

O livro logo se tornaria um best seller de autoajuda para picaretas, vigaristas, pilantras e embusteiros, como o autor mostraria ser, tempos depois. Foi ele quem inventou um golpe de mestre, o Carnê Fartura, em que vendia bilhetes que fariam dos compradores milionários. Era o tradicional golpe da pirâmide, que até hoje pega milhares de trouxas no mundo inteiro. Kellemen, claro, ganhou um dinheirão. Rico, alguns dizem que, milionário, picou a mula com o dinheiro no bolso e nunca mais foi visto pelas nossas bandas.

Essas coisas logo me vieram à cabeça quando li, outro dia, o manual que a Fifa divulgou em seu site, com o mesmo título da obra do malandro húngaro. Claro que, naquele hoje remoto ano de 1961 do século passado, ainda não havia o Facebook e o Twitter, inimagináveis, então, mesmo nas histórias de Azimov. De qualquer maneira, o primeiro Brasil para Principiantes teve críticas, mas não tão furibundas e idiotas quanto as de agora, que levaram a Fifa a retirar o troço da internet.

Na primeira vez, os leitores do livro levaram a coisa na esportiva, confirmaram as sacadas do autor e aprenderam como deixar de ser principiantes em sua querida pátria amada. Bem, o que aconteceu agora, e ainda entra na pauta de jornais, tevês e blogs, é uma cascata digna de Kellemen, se ele fosse jornalista, estivesse sem assunto e resolvesse plantar mais uma matéria contra a Fifa, em defesa do Brasil e de sua maneira de ser.

O texto fifense detectou tudo o que o brasileiro gosta de fazer ou de se comportar (acho até que foi escrito por um nativo e não por um cartola da entidade, como Jérôme Valcke, que vive reclamando da gente). As redes sociais conseguiram mais um assunto para polemizar, pois não têm o que fazer. Acontece que o Brasil, of course, desde Villegagnon, nunca foi para principiantes. O francês, sem nenhuma noção, foi se aliar aos tamoio e levou um cacete dos temiminó, de Arariboia, que faturaram Niterói e a hoje Ilha do Governador, presenteada pelos portugas. Mas essa é outra história.

Em suma, gostaria de saber o que é que tem de mentirosa ou insultuosa a matéria sobre o Brasil publicada no sítio da Fifa. É tudo verdade, diria Orson Welles. É do maior sub, aliás, essa história de ficarem putos com qualquer coisa que escrevam sobre o Brasil. Imagine na Copa.