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Número 792,

Cultura

Cinema

Quero ser grande

por Orlando Margarido — publicado 22/03/2014 09h20
Sabor e delírio em uma crítica à máquina americana que tudo suga. Por Orlando Margarido
Divulgação
O Congresso Futurista

O duplo de Robin Wright que tudo pode

O Congresso Futurista
Ari Folman

Sobre Robin Wright podemos supor ser uma estrela de cinema que, aos olhos de Hollywood, envelhece. Ela se consagrou no imaginário do público ao estrear como protagonista em A Princesa Prometida (1987), foi a Jenny de Forrest Gump (1994) para depois fazer opções questionáveis na carreira e nos casamentos. Toda essa realidade suposta, pois ela está muito bem no seriado House of Cards, ganha uma divertida constatação em O Congresso Futurista, de Ari Folman, estreia da quinta 27. Seria ainda mais saborosa se o diretor não se levasse tão a sério para bancar sua crítica à máquina americana que a tudo e todos suga. Ainda assim, o filme é tão incomum em sua abordagem que compensa plenamente excessos e delírios com uma imposição desnecessária de palavras onde a imagem bastaria.

O israelense Folman é um adepto da imagem, não de qualquer uma, mas da animação. Seu documentário Valsa com Bashir (2008) era construído na técnica de molde sobre personagens reais, soldados da invasão do Líbano em 1982, da qual participou. Agora, só a segunda metade do filme adota o recurso, aquela mais próxima do livro de Stanislaw Lem (Solaris), que adapta. Isso de forma muito mais livre e despojada, com referências a antigos desenhos, de Mary Poppins a Popeye, e, se soubesse existir, do nosso Walbercy Ribas, dos comerciais da Sharp.

Em um projeto tão autorreferente, a ex-senhora Sean Penn, homenageado com o nome do filho de ambos na versão animada de um pretendente (Jon Hamm), não é senão ela mesma, à vontade como produtora. Assim, a talvez outra Robin Wright há tempos amarga um declínio como atriz, dedicada a cuidar de um filho com doença degenerativa. Até que um produtor da “Miramount” lhe oferece a chance de ser escaneada. Aos 44 anos, ela pode ter sua figura em um chip de computador que fará na tela aquilo que não pode ou não gostaria de fazer. O prazo para tal contrato é de duas décadas, momento em que a história passará à animação no dito congresso, num universo ocupado apenas por criaturas decalcadas de si mesmas. Pode ser Tom Cruise, grisalho, ou Michael Jackson, eternamente jovem. Da juventude também trata o filme, mas da maneira que Hollywood a pensa.

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