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Número 792,

Internacional

Entrevista

"Os Estados Unidos não confiam em Rohani"

por Gianni Carta publicado 25/03/2014 04h55, última modificação 25/03/2014 06h05
O professor Mohammad Marandi é pessimista sobre o P5+1. E sustenta que Washington não reconhecerá a República Islâmica do Irã. Por Gianni Carta, de Teerã
Gianni Carta
prof

"O sionismo é uma ideologia racista que precisa ser extirpada" disse o professor Marandi a Gianni Carta

De Teerã

Especialista em Orientalismo e estudos norte-americanos na Universidade de Teerã, Mohammad Marandi “não é otimista” em relação às negociações entre o P5+1 e o Irã sobre o programa nuclear iraniano. Motivo: “Os americanos e seus aliados não reconhecerão a República Islâmica do Irã”. Ele expõe alguns pontos de vista no mínimo controversos. Por exemplo, o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad foi “mal interpretado” ao propor “varrer” Israel do mapa. Ahmadinejad argumentou que “Israel deve deixar de existir como o apartheid na África do Sul”. Sionismo é uma ideologia racista que tem de cessar de existir, acrescenta. Mais: o Irã nunca ensaiou qualquer ataque contra Israel, mas o mesmo não pode ser dito a respeito do Estado judeu contra o Irã. Mesmo assim, poucos no Ocidente reconhecem que Israel é um país perigoso. Marandi defende eleições livres na Síria, provoca, porém, nova polêmica ao sustentar que o presidente alauíta (variante do xiismo) Bashar al-Assad, apoiado pelo Irã por meio do grupo xiita Hezbollah, deve se recandidatar. Isso, apesar do fato de que mais de 140 mil são os mortos da guerra a assolar a Síria nos últimos três anos. Marandi nos lembra, ainda, que a Arábia Saudita apoia financeiramente as milícias extremistas sob a égide da Al-Qaeda. E os EUA nunca tiveram qualquer problema em se aliar à Arábia Saudita. “Eles não têm escrúpulos.”

CartaCapital: Graças às negociações de Genebra entre o P5 +1 e o Irã há um sopro de otimismo no ar.

Mohammad Marandi: Não estou otimista quanto a uma solução abrangente. Os americanos e seus aliados não reconhecerão a República Islâmica do Irã. Querem é impor sua vontade. Creem que o presidente Hassan Rohani não seja honesto. Sustentam que, embora tenha comunicado ao povo iraniano sua decisão de acertar a conformidade do Irã a um programa nuclear para fins pacíficos, de acordo com o Tratado de Não Proliferação Nuclear, Rohani amanhã dirá algo diferente ao mundo. Trata-se de uma avaliação irrealista. Demonstra que o Ocidente não entende Rohani, tampouco a opinião pública iraniana, embora seja claro que Rohani não sacrificará os direitos do Irã ou a ordem política iraniana. Os americanos e os europeus têm de ser realistas. Nunca apresentaram provas de que o nosso não é um programa pacífico. Eles têm de decidir se querem se mover em direção a uma aproximação ou se continuarão com as políticas atuais. Especialmente quando toda a região está em crise, e o único país realmente influente e estável é o Irã.

CC: Como o senhor reage quando Benjamin Netanyahu diz que as negociações de Genebra são “um erro histórico”?

MM: Durante os últimos 35 anos, o Irã jamais declarou que iria desfechar ou ameaçou desfechar qualquer ataque contra Israel. A mídia internacional interpretou mal o ex-presidente Ahmadinejad, quando este disse que Israel deveria ser “varrido” do mapa. Ele argumentou, isto sim, que Israel deve deixar de existir como o apartheid na África do Sul, Israel na versão que aí está. Esta sempre foi a política iraniana. O objetivo final do Irã é acabar com o sionismo, uma ideologia racista, como qualquer outra levada adiante por judeus, cristãos ou muçulmanos. A ironia é que Israel ameaça atacar o Irã. No entanto, Israel não é retratado como um país perigoso pela mídia ocidental.

CC: Numerosos entrevistados no Irã disseram que Ahmadinejad afirmou em farsi que “varreria” Israel do mapa.

MM: Ahmadinejad, repito, disse que Israel deveria deixar de existir como o apartheid na África do Sul. Mas nunca fez qualquer tipo de ameaça para deflagrar um conflito militar contra o regime em Tel-Aviv.

CC: Alguns observadores dizem que as negociações nucleares entre o Ocidente e o Irã se devem ao seguinte fato: Washington crê que Teerã pode estabilizar a região, especialmente na Síria.

MM: A Al-Qaeda, o monstro criado pelos Estados Unidos para lutar contra os soviéticos, tornou-se seu principal inimigo. Os ataques de 11 de setembro foram resultado do apoio dos americanos a esses extremistas na década de 1980. Agora, eles são o principal inimigo de Al-Assad, na Síria. É uma ironia, mas o líder sírio está lutando contra a Al-Qaeda.

CC: Durante os três anos de guerra, o Exército sírio também matou dezenas de milhares de civis.

MM: Al-Assad declarou que os elementos no interior do Estado, a polícia e o Exército cometeram erros. No entanto, o governo sírio afirma que havia extremistas na oposição desde o início do conflito, incluindo os integrantes do Exército Livre Sírio, o FSA, que luta para derrubar Al-Assad. Aliás, quão responsável é Barack Obama em relação às vítimas inocentes mortas por ataques de teleguiados?

CC: Mas Assad depende do Hezbollah, grupo financiado pelo Irã e considerado terrorista por Washington e Bruxelas.

MM: O Hezbollah não é uma organização terrorista. Não decapita pessoas. Não come seus inimigos. É uma legenda política com presença no Parlamento libanês. Lutou contra Israel porque Israel tentou ocupar o Líbano. É uma espécie de Congresso Nacional Africano, o ANC que no Ocidente era apontado como organização terrorista. Agora categorizam o Hezbollah como grupo terrorista.

CC: A solução proposta pelo Irã para a Síria são eleições livres.

MM: O governo iraniano propõe eleições livres com monitores internacionais, incluindo países como o Brasil. Os iranianos acreditam que os EUA, a União Europeia e os sauditas, entre outros, não querem o pleito. O motivo? Bashar al-Assad ganharia facilmente.

CC: Depois de todas as mortes e de crimes contra os direitos humanos, Assad não deveria renunciar?

MM: Por que não deveria se candidatar? Se o povo sírio não o quiser, poderá votar contra ele. Sabem melhor do que ninguém se ele foi pessoalmente responsável pela violência.

CC: O senhor insinua que a Arábia Saudita e outros países do Golfo financiam e armam os extremistas contra o regime sírio.

MM: A escolha da Arábia Saudita como aliada mostra como os Estados Unidos, que tanto falam de direitos humanos, não têm escrúpulos neste campo. Em Riad reina a ideologia extremista wahabi. Uma família governa o país, que leva seu nome. Não há eleições. Mulheres não dirigem carro, não têm conta bancária independente. Os EUA nunca tiveram problemas em relação a tudo isso. Assim como na América Latina não tiveram problemas em lidar com Pinochet e outros ditadores. Os americanos não gostam do Irã porque os iranianos querem ser independentes.

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