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Número 792,

Cultura

Cinema

Menos é mais

por Orlando Margarido — publicado 23/03/2014 08h10
Estranho e ambicioso o caminho do bósnio Danis Tanovic. Em seu novo longa, o drama de uma família cigana da Bósnia-Herzegovina
Divulgação
Cinema

A vida que pouco vale num país esfacelado pela guerra

Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho
Danis Tanovic

Estranho e ambicioso o caminho do bósnio Danis Tanovic. Capturou o apreço mundial com sua estreia Terra de Ninguém, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2002. Em seguida, tomou a responsabilidade de filmar um dos roteiros-testamento do polonês Krzysztof Kieslowski e o resultado de O Inferno foi digno, ainda que longe da acepção cinematográfica do mestre polonês. A afinidade com o drama social de seu país revisto com comicidade voltou a ter bom efeito em Cirkus Columbia. O que faltou talvez enxugar antes para a essência é recurso determinante em seu mais novo filme, Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho.

Um longo título para uma história breve e levada com severidade. Nazif (Nazif Mujic) é o pai de família que sustenta a mulher grávida e as duas filhas com a venda de sucata, na periferia da Bósnia-Herzegovina. A mulher adoece, arrisca-se a perder o filho e precisa de uma cirurgia urgente, que o clã de origem cigana não tem como arcar sem o seguro-saúde. A tensão se impõe, o hospital pressiona, as idas e vindas são angustiantes para o ex-soldado sem trabalho.

Tanovic é econômico e inclui a simbologia em seu filme. Nos percursos do clã, a imagem apocalíptica de uma usina siderúrgica dá conta da grandiosidade do progresso em contraste com a pouca valia da vida. Tanto mais que essas vidas são reais, reinterpretadas pelas próprias vítimas desse abandono social com tamanho empenho, que o patriarca saiu do Festival de Berlim de 2013 com o prêmio de melhor ator. E Tanovic, numa inesperada adesão ao tom menor, com o Grande Prêmio do Júri.