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Número 791,

Cultura

Dança

Um estilo familiar

por Flávia Fontes Oliveira — publicado 29/03/2014 09h17, última modificação 29/03/2014 17h03
À frente do Grupo Corpo, Rodrigo Pederneiras se alimenta da inquietação na dança. Por Flávia Fontes Oliveira
José Luiz Pederneiras
Grupo Corpo

Força e formas mais tensas compõe "Triz", com trilha de Lenina

Rodrigo Pederneiras, 59 anos, coreógrafo do Grupo Corpo, uma das maiores referências da dança brasileira, usa o sobrenome materno. No início da década de 1970, quando os seis irmãos, Paulo, Miriam, Pedro, Rodrigo, José Luiz e Marisa, convenceram os pais a deixar a casa onde moravam em Belo Horizonte e alugar um apartamento para montar a companhia mineira, a mãe só fez um pedido, o uso de seu sobrenome. Ficou assim, Pederneiras no lugar de Barbosa.

“Como era o início da década de 1970 e as pessoas ainda tinham preconceito, ela pediu isso”, diz o coreógrafo. Foram os Pederneiras que, sem meias-palavras, conquistaram literalmente o mundo com sua dança. Não é fácil, hoje, conseguir agenda para que se apresentem sem antecedência de um ou dois anos. Em janeiro e fevereiro a trupe fez sua tradicional turnê pelos Estados Unidos e Canadá, de 20 a 22 de março se apresenta em Bogotá e em maio na Alemanha, Áustria e Itália.

O Corpo se fez nesse tom familiar e assimilou o modo de ser da matriarca. “Minha mãe é muito doida.” Uma mãe do mundo. Não era raro, até bem pouco tempo, ao chegar em casa deparar com dez convivas à mesa de almoço. Apesar de serem muitos e continuarem em atividade (além de Rodrigo, Paulo é diretor artístico; Pedro, diretor técnico; Zé Luiz, fotógrafo; Miriam, assistente de coreografia), desde o início abrigaram amigos e parceiros. “Muita gente se juntou e está até hoje com o grupo.”

Longe do eixo antes cristalizado da cultura Rio-São Paulo, a seu modo o Corpo deu certo, o que parece um milagre, não pela distância, mas por tantos parentes próximos. Nesse conjunto, Rodrigo, nome à frente para o público por ser o criador, teve tranquilidade para moldar o estilo que buscava ao longo dos anos, tão característico hoje do perfil da companhia. “Uma coisa me instigava, nós, brasileiros, temos um modo de dançar, uma sensualidade. Pensava, isso vem de onde? Percebia que nas movimentações populares a parte da bacia mexia e fazia com que o corpo acompanhasse. Ela dava um impulso para o corpo todo. Fui atrás disso.”

21 (1992), Bach (1997) e Parabelo (1998), criações representativas da virada ao longo da década de 1990, descrevem esse modo de se mover: quadris livres, a ecoar para o tronco e as pernas, braços soltos e pés velozes. Coreografias alternadas com um dançar de registros clássicos, como Missa de Orfanato (1989). Hoje, marcadamente em Triz (2013) e Breu (2007), ambas com trilha de Lenine, outros acentos foram incorporados, como força e formas mais tensas nas sequências.

É preciso somar a tal investigação o gosto do coreógrafo por música. Ouvinte dedicado, Rodrigo tem Johann Sebastian Bach (1685-1750) como influência decisiva. Ele imaginava como seria usar o contraponto no palco, como sobrepor frases, sequências, à moda da música do compositor. Por isso, não entra na sala de ensaio sem conhecer exaustivamente a música. Todas as suas coreografias, mesmo as criadas para outras companhias, carregam isso, preencher o espaço com a música.

O coreógrafo discorre sobre a forma de criar, carreira e sucesso sem exagero. Fala de forma reservada. Não renega, mas também não valoriza demais seus feitos. Tem dúvidas, por exemplo, se seu trabalho tem profundidade para que possa ser ministrado em aula, como disciplina didática.

Na função de coreógrafo, gosta de se impor desafios, sinucas, como costuma dizer. “Meu medo é facilitar minha vida.” Os trios no último trabalho, Triz, são mostras de seu entender. “Não costumo fazer trios, acho que são fáceis de cair em um lugar-comum. Criei os de Triz de forma que começam e não terminam, e também há sempre duos com meninas que cortam o balé inteiro.” À vontade no ofício, corrige e aceita sugestões sem perder o foco ou alterar a voz. Costuma mostrar o movimento com o próprio corpo (Triz foi exceção por conta de duas cirurgias muito próximas à montagem) e a organização do espaço é moldada com o tempo. Tem olhos rápidos para ver o conjunto e pedir correções.

Diante de tanta precisão, soa estranho que tenha assumido o posto de coreógrafo por necessidade. Não que ignorasse o desejo, mas no princípio o grupo costumava chamar criadores de fora. “Não tínhamos independência artística. Como coreografava para companhias amadoras, resolvemos apostar no que tínhamos.”

No fim da década de 1970, o Corpo montou um time e desde então a premissa de que em time que está ganhando não se mexe tem status de lei. Paulo Pederneiras, além de diretor artístico, assina a iluminação e o cenário, que por anos ficou aos cuidados de Fernando Velloso. ­Freusa ­Zechmeister, o figurino. Com raríssimas modificações segue assim até hoje.

Depois de tantos anos, Rodrigo não sabe dizer se coreografar é um prazer. “Eu me cobro, fico muito inquieto, chateado. Quando acabo,  percebo que nos momentos de criação tudo pulsava com mais força. Na feitura, tudo é mais forte, mais vibrante. Depois dá um vazio.” Apesar de continuar à frente, planeja dar espaço a outros na criação. As circunstâncias para passar o bastão dão sinais de seguir a regra. Cassilene Abranches, que acaba de encerrar carreira como bailarina do Corpo, casada com seu filho Gabriel, diretor técnico, não tem receio de beber na fonte do sogro. Se confirmado, seu nome deve manter a ligação da família.

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