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Número 790,

Política

Análise / Vladimir Safatle

Por uma teoria de governo

por Vladimir Safatle publicado 10/03/2014 05h45
Uma transformação global não inventará novas práticas, mas vai desenvolver aquelas que antes não germinaram

que pode significar governar?  Esta é uma questão que ganhará cada vez mais importância nos próximos anos nos debates políticos à esquerda. Poderíamos tentar rechaçá-la, afirmar não caber a uma esquerda renovada pautar suas ações políticas por uma teoria do governo, pois isto poderia limitar sua força crítica, deixar-se captar mais facilmente pela lógica hegemônica da gestão do capitalismo.

Nesse sentido, poderíamos seguir Michel Foucault e dizer que, no fundo, nunca houve outra prática de governo na modernidade a não ser o liberalismo. E sua versão neoliberal seria suficientemente flexível para incorporar, sem risco à perpetuação do capitalismo, algumas ações pontuais ligadas à melhora da qualidade de vida e à diminuição da pauperização dos mais desfavorecidos. Já Robert Kurz dizia que o capitalismo não tinha problema em ora apelar para versões mais estatizantes, ora valer-se de versões mais liberais. O embate entre estatismo e laissez-faire não era exterior à dinâmica interna do desenvolvimento do capitalismo. O mesmo valeria, paradoxalmente, para o problema do governo na era neoliberal.

Uma perspectiva dessa natureza seria obrigada, no entanto, a afundar-se no impasse de quem acredita que as discussões sobre governo só poderiam aparecer depois de uma transformação global nas relações de poder ocorrer ou, ainda, só no interior de um devir revolucionário global. Assim, quando novos atores políticos dessem o tom de megamovimentos de contestação, poderíamos começar a pensar no que fazer no dia seguinte.

Há vários problemas aqui. O mais grave consiste em acreditar que a transformação política opera no interior de um campo onde há só uma tendência dominante. Como mostrou, porém, o último grande movimento de massa que conhecemos, as revoltas árabes (e, diga-se de passagem, a revolta egípcia foi simplesmente a maior manifestação de massa da história), uma transformação global é um campo de combate no interior do qual um embate ocorre a respeito de quem poderá melhor transformar demandas em resultados. O silêncio a respeito do que deve ser o governo apenas fortalece a voz daqueles que, fora da esquerda, apresentam-se como dispostos a governar. Não basta conseguir colocar 40 milhões de indivíduos nas ruas.

Uma transformação global não inventará práticas de governo completamente novas. Ela desenvolverá o que muitas vezes apareceu em germe, mas não pode frutificar por ter nascido em solo árido, como um ponto fora da curva ou em uma situação que não conseguiu durar. Aumentar o número de pontos fora da curva é uma boa forma de dar mais força a um futuro que será atacado por todos os lados, que terá a fragilidade do inesperado e do improvável.

Melhor seria a esquerda procurar esses pontos fora da curva, ter a humildade de se interessar pelo que ocorre e de imaginar como tais acontecimentos podem produzir modelos. Falar mais sobre a experiência da democracia direta proposta pela Constituição islandesa, mais sobre os cordões industriais no Chile de Allende, mais sobre a política de drogas do Uruguai e menos sobre como a tarifa zero, se implementada, seria mais uma astúcia para reforçar a produtividade no interior do neoliberalismo.

Nesse contexto, vale lembrar uma boa colocação de Ernesto Laclau. Ninguém sai ou um dia saiu às ruas para derrubar o capitalismo. Mesmo nos estertores da Revolução Soviética, o povo saiu por desejar a realização de demandas muito concretas: paz e pão. Se não houvesse aqueles capazes de convencer a população de serem aptos a fornecer mais do que revolta, nada teria ocorrido. Mas estes não necessariamente forneceram a promessa de saber dirigir. Eles poderiam, ao contrário, fornecer simplesmente a consciência de como assegurar as condições para o aparecimento de boas respostas a respeito de problemas bastante concretos. Ninguém hoje espera uma classe que teria boas respostas para problemas que elas nem conhecem direito, que nem os vivenciam no dia a dia. Espera-se a capacidade de garantir, àqueles que sofrem os problemas, a certeza de que serão eles a produzir as respostas. Pois não se trata mais de compreender “governar” como “dirigir”, mas como “garantir as condições para que as pessoas dirijam a si mesmas”.