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Número 790,

Sociedade

Brasiliana

O homem-editora

por Salomão Larêdo — publicado 14/03/2014 03h35, última modificação 14/03/2014 04h35
Por que criei um selo em Belém para publicar meus próprios livros. por Salomão Larêdo
Reprodução
Obras

"Foram 39 obras editadas. A partir de agora, torno-me autor da Empíreo, fundada e dirigida pelo meu filho"

Quem observa a logomarca Salomão Larêdo Editora em meus livros talvez imagine se tratar de uma das muitas visagens e mitos do imaginário da Amazônia. Nem tanto. Em busca da vereda certa, conforme o senso comum, há algum tempo fiz o registro. A editora nasceu de fato e de direito e gerou obrigações sociais. Sem recursos, entendi, porém, que o caminho para realizar meu sonho não seria a formalidade de uma empresa. A editora, legalmente, surgiu natimorta. Mas o sonho continua, vivíssimo. Para viabilizar minha produção literária, passei a ser escritor e editor, a partir da logomarca que é o meu próprio nome.

Nasci na Vila do Carmo, Cametá, à beira do Rio Tocantins, entre Belém do Pará e Tucuruí, onde se ergue a hidrelétrica e de onde o governo exporta a energia e só há poucos anos começou a abastecer os lares ribeirinhos, que antes se valiam de lamparina a querosene para iluminar parcamente seus barracos. Sou jornalista e escritor. Fiz o curso de Direito na Universidade Federal do Pará, onde também cursei o mestrado em estudos literários. Tenho título de advogado por ser inscrito na OAB local e 65 anos de idade, dos quais 45 dedicados à atividade literária e ao trabalho pela democratização de acesso aos bens culturais, à promoção do livro e à adoção de bibliotecas em toda parte: escolas, comunidades da beira do rio, canoas, rabetas, balsas, paróquias, clubes...

Meus pais, familiares e gente da minha comunidade pobre povoaram a minha infância com muitas histórias da matintaperera, cobra-grande, boto, símbolo da sedução amazônica, e outras crendices, pajelanças, sincretismo, mitologia. Vivi um cotidiano místico e mágico entre cuias pitingas, preamares, beberagens, banguês, sambas de cacete, ladainhas, emplastros reimosos, vindicás, tajás, assombrações, superstições, amuletos, mundo simbólico, do qual se serve o povo da sociedade amazônica para explicar-se tão sensual, dançante, sexual, amoroso e misterioso.

Após morar em todo o Baixo Tocantins em busca de educação e já “mundiado” e seduzido pelo lendário amazônico, cheguei a Belém, onde tive oportunidade de ler autores paraenses como José Veríssimo, Inglês de Souza e Raimundo Moraes e brasileiros como Guimarães Rosa, Machado de Assis e Erico Verissimo, além dos estrangeiros Albert Camus, James Joyce e Mario Vargas Llosa, entre tantos outros. Também o teatro e o cinema me influenciaram.

Curioso e com a firme vontade de ser escritor e editor de livros, precisei ir às gráficas conhecer o processo e as etapas de produção. Aprendi na marra, pelo meio e método empírico, a fazê-lo. Passei por muitas dificuldades, adversidades, apertos e, longe dos centros onde se concentra o público leitor com maior poder aquisitivo e maiores recursos tecnológicos, não podia expandir a minha criatividade. Mesmo sem alguém que se interessasse por aquilo que produzia, no sentido de assumir o ônus da edição, apostei em mim mesmo. Viabilizei a manufatura dos meus livros, assumi todos os riscos, sem ter a quem recorrer. E passei a usar meu nome próprio para não deixar o livro pagão, tornando a “Salomão Larêdo Editora” conhecida, como se de fato e de direito existisse.

Para alavancar minha carreira ainda subsidiada pela renda familiar obtida com as atividades de jornalista e advogado, fiz mestrado em Letras, inúmeros cursos de aperfeiçoamento, passei a dar aulas, ler, pesquisar e escrever mais ainda. E como continuava difícil conseguir quem patrocinasse a edição, além da minha família, passei a elaborar projetos que, aprovados nas leis de incentivo à cultura, viabilizam as publicações.

Participei e fundei entidades de classe, criei meios, como o Jirau da Literatura, para promover o autor local, uso as redes sociais para divulgar a minha literatura e tento dar espaço aos talentos autóctones. Metaforicamente, não passamos do bairro de São Brás, na saída de Belém. Somos desconhecidos do paraense e quase ninguém sabe dos autores e seus trabalhos. A Amazônia não os conhece e o brasileiro tampouco tem informações sobre a nossa existência e produção.

Hoje, a “Salomão Larêdo Editora” tem em seu catálogo 39 livros do escritor Salomão Larêdo. De minhas obras, entre romances, contos, poemas, memórias e autoficção, imana, naturalmente, o imaginário amazônico.

Pela aceitação do público baseado nas vendagens em cada edição, creio ter feito a opção certa: ser escritor e editor de meus próprios livros, situação que agora se modifica no meu próximo trabalho, um romance motivado em um casamento homossexual na Amazônia cametaense das décadas 1950-1960, que será editado pela Empíreo, de São Paulo, em uma feliz coincidência, pertencente ao meu filho Filipe Nassar Larêdo. Filipe, após concluir o curso de Direito, graduar-se em produção editorial e trabalhar em outras editoras na capital paulista, dirige a sua própria, que daqui pra frente passa a ser a editora dos meus livros.

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