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Número 790,

Política

Entrevista

Haddad, ano II

por Mino Carta, Sergio Lirio — publicado 17/03/2014 11h26, última modificação 17/03/2014 11h29
O prefeito de São Paulo se diz pronto para enfrentar a “onda conservadora”
Olga Vlahou

Matéria publicada em 12 de março de 2014, na edição 790 de CartaCapital

"Atípico.” De forma comedida, o prefeito Fernando Haddad define seu primeiro ano no comando de São Paulo. Estamos em seu gabinete às vésperas do Carnaval e o termo surge após um bate-papo informal no qual se listam os obstáculos e revezes dos 12 meses anteriores: o fim abrupto da lua de mel após 120 dias de mandato, interrompida precocemente pelos protestos de junho, as derrotas na Justiça que cancelaram o reajuste do IPTU e congelaram a expansão dos corredores de ônibus, os piores índices de aprovação dos últimos anos, abaixo até dos números de Gilberto Kassab. Nada o incomoda mais, porém, do que o boicote à renegociação da dívida municipal com o governo federal. Haddad esperava apoio do empresariado local, mas se viu isolado diante da pressão dos “mercados”. “Gente que construiu seu patrimônio aqui protagonizou um movimento para impedir a recuperação da cidade. Inacreditável”, desabafa. A campanha contra a renegociação o levou a definir a elite paulistana como reacionária e atrasada, frase da qual não se arrepende. Apesar do ano “atípico”, Haddad afirma ter cumprido as principais promessas de campanha, garante que o Mundial de Futebol deixará um legado importante para a zona leste e se declara preparado para enfrentar a onda conservadora.

CartaCapital: Ser prefeito é mais difícil do que o senhor imaginava?

Fernando Haddad: São Paulo é sempre um desafio para qualquer governante. Tinha vivido a experiência de passar pela prefeitura na gestão da Marta Suplicy, que, em minha opinião, deixou um legado importante para a cidade, infelizmente não reconhecido. Não bastasse, as coisas mudaram muito no Brasil a partir de junho do ano passado. Não há como negar, houve uma mudança de humor que precisa ser mais bem compreendida, processada. Essa mudança me colheu com 120 dias de governo. O famoso primeiro ano de lua de mel, no meu caso, durou quatro meses. Em resumo, São Paulo é difícil, estava em situação difícil durante a campanha, é a cidade que menos investe no Sudeste em termos per capita, e viu-se atingida por um turbilhão de protestos na contramão da capacidade de superação das próprias debilidades econômicas do município.

CC: Quase um ano depois, como o senhor interpreta os protestos?

FH: Uma sobreposição de fenômenos alinhados. O primeiro deles, um pano de fundo comum, decorre do fato de os brasileiros reconhecerem a sua melhora de vida, mas, como afirmei na campanha, da porta de casa para dentro. A vida do trabalhador brasileiro melhorou, ninguém duvida. Há mais acesso a bens materiais, espirituais e culturais. Quando se leva em conta, no entanto, a vida do cidadão em um sentido mais amplo, sobretudo em relação à qualidade dos serviços públicos, temos muito a avançar. Houve um desalinhamento, até certo ponto natural, pois é mais fácil melhorar a vida do indivíduo do que melhorar a vida da cidade. Esse descompasso é o pano de fundo desses movimentos.

CC: A melhora de vida estimula a demanda por serviços.

FH: É isso. Existe, porém, outra questão. De alguma maneira, o pensamento conservador se articulou melhor, encontrou uma fresta para se desenvolver e se manifestar. Há uma justaposição de demandas legítimas de um lado, e de outro uma organização conservadora na contracorrente dessa ascensão social.

CC: Onde atua essa doutrinação, essa nova linha?

FH: No plano da comunicação social. Existe, depois de muito tempo, uma militância conservadora que não tem mais vergonha de ser o que é.

CC: Mas quando ela teve vergonha?

FH: O pensamento conservador sempre regeu a vida brasileira, não há a menor dúvida. Mas, a partir do fim da ditadura, sobretudo após a Constituinte, embora ele se manifestasse em várias áreas, inclusive na cultural, as ideias progressistas ganhavam terreno. Efetivamente houve conquistas importantes, os cidadãos começaram a discutir coisas impensáveis há dez ou 20 anos. A posição social dos negros nunca foi tão discutida como hoje.

CC: Como esse avanço conservador afeta a ação do prefeito da maior cidade do País?

FH: Existe hoje uma capacidade de bloqueio por meio da judicialização dos temas. Isso é novidade. Nunca antes um prefeito foi impedido de atualizar a planta de valores do IPTU. Nenhum, nem de esquerda, nem de direita. A Justiça simplesmente ignorou uma prerrogativa do Poder Executivo. Esse contratempo limitou a chegada do Programa de Aceleração do Crescimento a São Paulo, pois o governo federal exige contrapartida dos municípios e ficamos sem possibilidades de oferecê-la. Isso impôs restrições ao cronograma de obras previstas que colocaria a cidade em pé de igualdade com Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre. A judicialização tornou-se um expediente para impedir a gestão pública, ou seja, barrar a realização dos desejos expressados nas urnas.

CC: O senhor, já se sabia, não teria o apoio da elite de São Paulo. Mas chama atenção a péssima avaliação até entre aqueles que o elegeram. O apoio ao senhor é menor do que aquele ao ex-prefeito Gilberto Kassab no fim de mandato.

FH: É um contexto geral que transcende o governo municipal. Tem toda uma circunstância.

CC: Qual?

FH: Citarei uma. A contestação à Copa tem tido efeito no debate político. Não é pouca coisa: 38% dos brasileiros se manifestarem contra a realização do Mundial. Talvez essa percepção venha a mudar no decorrer do campeonato e, sobretudo depois, se tudo ocorrer como o previsto. Foram 12 meses muito atípicos, muito difícil compará-los com qualquer outro primeiro ano de um prefeito.

CC: E como isso afetou a sua maneira de administrar?

FH: Temos cumprido o plano de governo aprovado nas urnas. Rigorosamente. Na área de transportes, quais eram as nossas principais bandeiras? Prioridade para o ônibus e bilhete único mensal. As duas estão em vigor. Na saúde? Leitos hospitalares e a Rede Hora Certa. Inauguramos sete equipamentos da Rede Hora Certa, vão chegar 19 dos 31 previstos e vamos inaugurar um primeiro hospital neste ano. Educação? Transformar os CEUs em centros universitários para a formação de professores. Transformamos 18. Há 70 mil crianças na escola em período integral e acabamos com a progressão automática. Cumprimos com o prometido, mas temos uma dificuldade brutal em fazer chegar essas informações à população. Sobretudo às camadas que constituem a base de apoio tradicional do PT.

CC: Qual o motivo?

FH: No segundo semestre do ano passado, pelos relatórios que recebi, posso afirmar: ninguém foi tão exposto a um linchamento como este que vos fala. Foi realmente impressionante. Desde quando era ministro da Educação sofro esse tipo de ataque e nunca me incomodou, pois não acho esta a questão central. Convenhamos: o fato de um ministro que teve a oportunidade de deixar um legado que o presidente Lula me permitiu, ser obrigado a discutir insistentemente o chamado “kit gay” é em si um sintoma de como se processa a comunicação social no Brasil. Mas o segundo semestre do ano passado... Não se discutiam os temas, as implicações das medidas para recuperar as finanças da cidade. Não havia espaço para o debate, apenas para o linchamento. Aconteceu uma coisa interessante. Desmantelamos uma quadrilha instalada na prefeitura dedicada havia anos a fraudar impostos. Achei que a mídia e a elite, sempre tão ciosas do discurso de combate à corrupção, dariam mais apoio à prefeitura. Não aconteceu. Ao contrário. Por que os empresários silenciaram? Seria pelo fato de as investigações atingirem alguns de seus representantes?

CC: O que o levou a fazer o recente desabafo sobre a elite paulistana?

FH: Até entendo a exploração barata das providências que deveriam ser a rotina administrativa, entre elas a atualização de tarifas e plantas genéricas de IPTU. Até entendo uma oposição barata. Mas me surpreendeu a reação à renegociação da dívida da cidade com a União. A pressão feita pelos mercados para a cidade de São Paulo não recuperar a sua capacidade de investimento, ancorada no discurso terrorista e falso de desequilíbrio fiscal, revelou uma faceta da política local que não poderia imaginar. Moradores desta cidade, gente que construiu seu patrimônio aqui, protagonizaram um movimento para inviabilizar a recuperação do município, base de sua riqueza material. Inacreditável.

CC: No passado, o PT encampou projetos de maior participação popular nas decisões, entre eles o Orçamento Participativo. Por que isso se perdeu?

FH: No nosso caso, não se perdeu. Não falo do Orçamento Participativo. Em uma cidade do tamanho de São Paulo, ele se mostrou muito complicado. Mas o planejamento foi participativo. Nosso programa de metas e o plano anual nasceram de dezenas de audiências públicas com a presença de milhares de paulistanos. Pela primeira vez na história da cidade elegemos o conselho de representantes das subprefeituras. Foram 1.113 conselheiros eleitos, por meio de uma votação em urnas eletrônicas, possibilitada por um convênio com o Tribunal Regional Eleitoral. Nenhuma administração antes da nossa elegeu representantes das subprefeituras. Criamos o conselho municipal de trânsito e transporte, contratamos uma auditoria internacional para abrir a planilha do sistema de transporte público e colocar à disposição do conselho social. E criamos o conselho da cidade nos moldes do conselho de desenvolvimento econômico e social da Presidência da República.

CC: São Paulo e o Brasil estão preparados para a Copa?

FH: Estão. Sinceramente, acredito que tudo vai correr bem. No caso de São Paulo vai haver um legado importante para a zona leste, em decorrência dos investimentos da prefeitura e do estado.

CC: Qual legado?

FH: Itaquera vai mudar radicalmente em pouco tempo. Teremos um polo econômico lá muito importante, com cerca de 100 mil empregos, escola técnica, universidade federal, centro cultural... Os terrenos do entorno hoje reservados para o Mundial vão ser liberados para os empreendimentos previstos. Um único grupo econômico anunciou a criação de 50 mil postos de trabalho em Itaquera, estimulado pelos incentivos fiscais aprovados pela prefeitura.