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Número 790,

Cultura

Futebol

Futebol sustentável

por Afonsinho publicado 17/03/2014 09h37, última modificação 17/03/2014 09h41
O esporte não pode viver só de lucro, mas do bem-estar de quem joga e assiste, diria o presidente uruguaio. Por Afonsinho
Rodrigo Rocha Gomes / Flickr
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"Preservar a integridade deveria estar no DNA da Fifa e da Uefa." disseram executivos do futebol alemão ao Lance!

Pronto: com o Carnaval acabou também o período de testes na seleção brasileira, levado até o último dia pela escassez extrema de tempo. Agora só resta a convocação final. Mesmo assim, nosso roteiro é bom. Temos uma Quaresma pela frente. Aos testados e até aos não testados resta esperança, a última que morre.

O jogo da Quarta-Feira de Cinzas deu chances a Rafinha, William e Fernandinho – esse aproveitou bem sua oportunidade com um golaço. Mesmo isso, no entanto, seria pouco para o traquejado treinador brasileiro. Sua possibilidade cresce pela versatilidade na função de meio-campista. O exigente Paulo Cesar Caju, entre um bloco e outro, bateu a tecla. “Defende bem, sai para o jogo e bate de fora.” Foi a receita do que aconteceu no dia seguinte. Começou protegendo a defesa e, como ainda não o conhecia bem, não me animei muito com alguns passes errados. Firmou-se na função de aproximar-se do ataque em que foi experimentado no segundo tempo e parece ter arrumado sua brecha coroada com o chutaço no ângulo.

Rafinha tem a difícil tarefa de, sem tempo suficiente, barrar o experimentado Maicon, convocado por isso mesmo pelo Felipão. Tem a seu favor o fato de jogar no Bayern de Munique, o time em melhor momento no mundo. Será a última oportunidade para o técnico conviver de perto com os pretendentes e avaliar suas qualidades de vida em grupo, que ele valoriza bastante, com razão, no seu trabalho de organizar a “família”.

Como são as coisas no futebol. Quase não se fala mais em Ronaldinho, Kaká, Ganso, Tardelli, Brocador e outros menos votados. O que chega a ser desrespeitoso, pela qualidade e experiência deles. Pode deixar que Scolari os têm na lista de bolso mesmo, com as chances diminuindo a cada dia. Joga ainda com o estímulo para afastar a acomodação dos que possam se sentir garantidos.

Ainda que o tempo seja tão exíguo, ninguém está livre de ver surgir uma promessa que “estoure” na primeira parte do Brasileiro, que vai anteceder a Copa de 2014 (temos exemplos anteriores). Todas as seleções jogaram na chamada “data Fifa” e vão mostrando suas caras, o funil se estreitando.

No movimento geral, dentro e fora do campo, muita coisa chama atenção. Entrevistas sensacionais no Lance! com executivos do futebol alemão abrem os horizontes do progresso no esporte, quiçá na sociedade humana. Defendem uma mudança de rumos com alguns pontos fundamentais. Clubes não podendo ceder mais que 50% a investidores, cotas de tevê distribuídas igualmente entre os participantes e opção prioritária pela sustentabilidade com planejamento de longo prazo com as correções comuns de percurso.

Revelam ainda que para a última Copa do Mundo na Alemanha os estádios foram construídos ou reformados preservando a “geral”. Quer dizer que exigência de “arenas” é relativa novidade? Argumentam entusiasmados pela paixão dos torcedores como motor do esporte e os esforços para valorizá-los. “Futebol é antes de tudo paixão de quem tem pouco dinheiro na carteira.”

Contestados sobre possíveis desigualdades no tratamento a equipes de portes diferentes, sustentam que fortalecer clubes menores estimulam os campeonatos, evitando limitar a duas ou três concorrentes, como acontece na maioria dos países. Dizem com todas as letras que os bilionários “donos de clubes” põem em risco o futebol e os classificam como radicais livres do esporte. Foram indagados ainda sobre segurança, quando revelaram ter o maior público em seus estádios. “Preservar a integridade deveria estar no DNA da Fifa e da Uefa.”

O mais interessante é sua posição sobre ser mais importante a sustentabilidade em detrimento da especulação, do que só pensar em aumentar as receitas. Relataram que, eliminada a exigência de apresentar lucros altos aos investidores, os clubes tiveram uma ampliação muito grande de aplicação nas divisões de base. Um capitalismo que sai da selva? Defender essas posições é contrariar em profundidade a tendência maléfica corrente nos dias de hoje e faz pensar num paralelo com as ideias do presidente uruguaio quando considera a felicidade, o bem-estar da população como o objetivo de quem governa, não simplesmente procurar o aumento de volume da riqueza.

P.S.: Declaração campeã do Carnaval esportivo por conta do treinador vascaíno ao dar folga aos jogadores: “Temos um jogo importante na quarta-feira, eles têm se conduzido bem, confio no profissionalismo deles”.

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