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Número 790,

Cultura

Memória

A juventude perdida

por Orlando Margarido — publicado 08/03/2014 07h14
Alain Resnais soube renovar o cinema e a si mesmo quando a idade ditava o contrário
Cos Aelenei
Resnais

Resnais dirige Sir John Gielgud, o divagante Langham de "Providece"

Desde que se reinventou no cinema ao fim dos anos 80, com tramas na aparência alegres e triviais, Alain Resnais formou uma trupe fiel de atores. Alguns deles conversaram com CartaCapital durante o Festival de Berlim em fevereiro, quando o cineasta francês apresentou em competição Amar, Beber e Cantar, agora filme-testamento. Resnais não pôde ir. Estava doente, mas envolvido em um novo projeto, disse Sabine Azéma, mulher e protagonista predileta. “Ele não para, está sempre tramando algo”, riu. Por isso também não deixou de surpreender em sua morte poucas semanas depois, no dia 1º, aos 91 anos.

Resnais era jovial no comportamento e nos filmes. A Berlinale valorizou essa qualidade ao atribuir a ele o prêmio Alfred Bauer, voltado para perspectivas cinematográficas. Pode-se alegar que no atual filme o diretor não inova, apenas leva ao limite a condição antinaturalista e a artificialidade proposital de uma peça filmada, no caso de seu habitual autor Alan Ayckbourn, com cenários, desenhos e cortinas em vez de portas. O que importa, como em Smoking e No Smoking ou no sucesso Medos Privados em Lugares Públicos, são os atores e o que dizem. “Ele nos reunia para falar da peça, mas, como um erudito, também conversava de temas sofisticados. Ao filmar, já sabíamos o que fazer”, diz Hippolyte Girardot, em seu segundo filme com Resnais.

Para os cinéfilos, haverá outro Resnais a prantear. Aquele que com Hiroshima, Meu Amor determinou uma guinada no cinema moderno, ao fazer um relato contundente sobre a Segunda Guerra Mundial, atípico por estabelecê-lo entre amantes. O longa-metragem de estreia do diretor em 1959 poderá ser revisto em cópia nova entre 21 e 29 de março, no CineSesc, em São Paulo.

Foi uma fase de obras sombrias e impactantes, em que se falava de memória e morte com um rigor quase impenetrável, a exemplo de O Ano Passado em Marienbad, Muriel, Providence e Meu Tio da América.

O grande público se ressentia de certo intelectualismo, mas Resnais se aproximaria das plateias com o humor e engenho das últimas décadas. Credita-se a mudança, em boa parte, ao casamento com Azéma. Ela contornou, com modéstia: “Buscar o
novo é para a juventude, e ele é o jovem entre nós dois”.

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