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Número 789,

Internacional

Análise / Paul Krugman

Uma Escócia independente

por Paul Krugman — publicado 06/03/2014 05h18, última modificação 06/03/2014 06h00
A autonomia do país teria de repousar sobre uma sólida base monetária. Por Paul Krugman
Isaac Bordas / Flickr
Escócia

A crise do euro pode levar a Escócia a manter a libra, mesmo independente

Não tenho uma posição sobre a independência da Escócia. Como americano, gosto de democracias grandes e diversificadas, mas também compreendo a frustração dos escoceses, amarrados à Inglaterra de David Cameron.

A independência teria de repousar sobre uma sólida base monetária. E o movimento de independência me preocupa, porque o que seus proponentes disseram sobre esse assunto crucial parece profundamente confuso. Segundo o movimento de independência, não há problema. A Escócia continuará com a libra. Isto, porém, é muito mais problemático do que eles parecem perceber.

É verdade que o resto do Reino Unido não pode impedir que os escoceses usem a libra, assim como os Estados Unidos não podem impedir o Equador de usar dólares. Mas a lição da crise do euro é que compartilhar uma moeda sem ter um governo federal comum é muito perigoso.

A Escócia com a libra estaria em forma ainda pior que os países que usam o euro, porque o Banco da Inglaterra não teria a obrigação de atuar como credor de último recurso para os bancos escoceses. Possivelmente assumiria ainda menos responsabilidade pela estabilidade financeira local do que o Banco Central Europeu pré-Mario Draghi. E ficaria muito aquém do BCE pós-Draghi, que também assumiu o papel de credor de último recurso para os governos da Zona do Euro.

Acrescente-se a isso a falta de integração fiscal. A questão não é se a Escócia em média pagará mais ou menos impostos se for independente. A questão é: o que aconteceria se alguma coisa desse errado, se houvesse uma recessão na economia escocesa? Como parte da Grã-Bretanha, a Escócia receberia uma grande ajuda, assim como um estado americano (ou Gales). Se a Escócia estiver por conta própria, estará por conta própria como Portugal.

Agora, a Escócia supostamente teria alta mobilidade de mão de obra. Supondo que ela consiga fazer parte da União Europeia (embora isso também fosse incrivelmente arriscado), ela entraria sob o Ato Único Europeu, que oferece liberdade de movimentação, e a Escócia mais ou menos tem uma língua comum com a Grã-Bretanha. Mas isso não é necessariamente bom: o que estamos vendo em lugares como Portugal é a emigração em grande escala de jovens trabalhadores, deixando uma população reduzida para suportar o peso fiscal de cuidar dos idosos.

Posso compreender as atribulações dos escoceses. Mas, se eles realmente quiserem fazer isso, é melhor levar a sério a questão do dinheiro.

Houve muita discussão sobre o quinto aniversário da Lei de Reinvestimento e Recuperação Americana. Meu veredicto continua o mesmo: foi um plano que causou um bem econômico considerável, mas também um dano político considerável.

O bem econômico foi simples: tudo o que temos visto desde 2009 confirma que a política fiscal expansionista é expansionista e que a política fiscal contracionária é contracionária. Há até motivos para se crer que a Lei de Recuperação reforçou o PIB e o emprego, enquanto na verdade era relativa ao que teria acontecido sem ela. O dano político veio principalmente do fato de que a lei foi pequena demais e durou pouco, mas em parte também de um sério erro no modo como o governo Obama a vendeu.

Há um boato generalizado contra aqueles de nós que dizem que a Lei de Recuperação foi pequena demais, qual seja, de que estávamos apenas encontrando desculpas depois do fato. Não estávamos: pessoas como o economista Joe Stiglitz e eu avisamos desde o início que ela era pequena demais e que haveria sérios danos políticos em consequência.

Você pode argumentar que não havia como o governo ter feito um plano maior. Eles poderiam ter usado a reconciliação para superar a barreira de 60 votos no Senado, mas isso foi considerado radical demais. Em parte porque o governo tinha a teoria errada sobre a recessão, o que também causou o caos na venda do plano.

A previsão do impacto da Lei de Recuperação preparada pelos economistas Christina Romer e Jared Bernstein é notória, porque ela previa um rápido retorno ao pleno emprego, o que não aconteceu. Mas previa uma rápida recuperação mesmo sem o estímulo. O papel da lei se limitava a limar o pico do desemprego, depois sair do caminho enquanto ocorria uma recuperação natural. Subjacente àquela previsão havia a opinião de que a economia voltaria rugindo quando a crise financeira fosse estabilizada.

Isso não era plausível aos que conhecem a história. Pior, o governo Obama deixou de considerar as consequências para a economia política se a opinião da recuperação rápida se mostrasse errada.

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