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Número 789,

Política

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

Tragédias futebolísticas

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 02/03/2014 07h07
No ano em que vai acolher a Copa, o futebol brasileiro está em baixa
VANDERLEI ALMEIDA / AFP
Futebol

No ano em que o Brasil recebe o mundial da Fifa, o futebol nacional encanta pouco

A palavra tragédia é em geral mal aplicada no futebol. Os comentaristas esportivos gostam de usá-la para designar o desfecho do jogo Brasil vs. Uruguai, final da Copa do Mundo de 1950, ou para invocar a derrota brasileira diante da Itália no Mundial da Espanha de 1982. Mas essas foram falsas tragédias.

Nada posso garantir a respeito de 1950. Ouvi o jogo pelo rádio com meu pai (uma narração inesquecível de Pedro Luís) cercado de velas iluminadas pela fé de minha avó materna. Depois do gol de Giggia, prólogo do martírio de Barbosa, Dona Hermelinda invocava as graças de Santa Rita para reverter o placar adverso.

Já a chamada tragédia do Sarriá foi um monumento esculpido à grandeza desse esporte. Uma reafirmação de que ele pode ser encantador quando jogado e dirigido por gente do ramo. Nada houve de trágico ali, salvo os rancores daqueles que imaginam que o Brasil só perde para ele mesmo.

No ano em que vai acolher a Copa do Mundo, o futebol brasileiro está em baixa. Digo isso compungido, pois o jogo da bola foi praticado no Brasil com a despretensiosa inteligência dos que jogam conversa fora nas mesas de bares.

Em um fim de semana, caí no sono enquanto assistia a jogos de futebol. Fiquei alarmado. No sábado, 8 de fevereiro, depois de escrever um artigo para CartaCapital, preparei o espírito para ver Flamengo e Fluminense. O tricolor enfiou 3 a O no rubro-negro. O resultado engana. Foi uma exibição de baixa qualidade técnica: jogadores medíocres e técnicos sem imaginação nem ousadia. A bola se deslocava sonolenta quando não era despertada por um pontapé maldoso desferido por um dos pernas de pau que desfilavam a sua grossura nas quatro linhas.

Uma tristeza. O Fla-Flu já teve dias melhores. Veja o caro leitor que o meio de campo, hoje povoado de brucutus, foi ocupado em outros tempos por Didi e Dr. Rubens, meias do velho estilo e da boa cepa. Mais recentemente, entre os 70 e o começo dos 80, duelaram no espaço nobre do gramado Rivelino pelo Flu e Zico pelo Fla, escoltados por Carlos Alberto Pintinho e Adílio ou Andrade.

O pesadelo do sábado foi sucedido pelo terror do domingo. Boa ideia teria sido uma sessão de cinema ou, ainda melhor, uma busca na biblioteca. Os candidatos mais fortes a uma releitura naquela sessão vespertina seriam Tristam Shandy, de Laurence Sterne, Dezoito Brumário, de Karl Marx, ou Tartufo, de Molière. Qualquer dos textos faria justiça aos tempos pós-modernos, justamente por terem construído horizontes sociais e psicológicos de uma modernidade ainda não ultrapassada.

Mas é claro que a alma palestrina preferiu arrostar o terror do jogo Palmeiras e Audax. Há sempre aquela esperança do torcedor comum – faço questão de pertencer a essa turma – de que o time possa apresentar, como prefere a vulgata futebolística, um desempenho de encher os olhos, sobretudo na sequência de uma campanha invicta. Assim, não trepidei entre saborear mais uma iminente vitória ou reexaminar as peripécias do Burguês Fidalgo. Escolhi a desejada epopeia verde. No campo, vi o Audax ensaiar uma demonstração do velho estilo brasileiro: o toque de bola e a paciência de encontrar a oportunidade para a finalização.

Desconfio de que o declínio do jogo da bola no Brasil guarde parentesco com a “racionalização” da formação dos jogadores. Expulsos da espontaneidade das várzeas e das praias pela urbanização eversiva, os futuros jogadores foram metamorfoseados em autômatos com a ajuda dos burocratas das escolinhas de base.

Lembro-me de alguns que passaram dos campos pelados da várzea para os gramados do futebol oficial, com direito a nome no jornal e esperança de chegar à Seleção Brasileira. Julio Botelho, o Julinho, Djalma Santos, Carbone, Idário, Waldemar Carabina, Rubens, Homero.

Nos anos 50 e 60, São Paulo de Piratininga se transmutava de capital da província para a metrópole. Meu olhar de menino e adolescente, fanático pelo dito esporte bretão, via São Paulo como um imenso campo de futebol, interrompido por impertinentes avenidas e arranha-céus. Jogava-se futebol nas ruas, nos becos, nos quintais, em todos os cantos.

Nos fins de semana, sentado nos barrancos, eu assistia à bola dos adultos correr solta. Nos dias úteis, a molecada cabulava aula e se juntava nos terrões que simulavam campos de futebol. Os gazeteiros ora celebravam os gols marcados, ora se estapeavam por causa de faltas controvertidas. Socos e pontapés eram desferidos com lealdade e até mesmo com amizade. Tudo acabava bem, descontadas as fraturas de nariz.

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