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Número 789,

Cultura

Fotografia

O ouro nas linhas

por Rosane Pavam publicado 04/03/2014 09h40, última modificação 04/03/2014 09h58
Livro organiza os 50 anos da arte urbana do fotógrafo Carlos Moreira. Por Rosane Pavam
Rosane Pavam
Carlos Moreira

Sob o olhar do mestre em seu estúdio, sorri o autor das imagens de Congonhas (1981) e Praça de Ramos (1970)

Chamem-no Carlos Moreira. Cinquenta anos atrás, um dos maiores fotógrafos brasileiros decidiu desfazer de um golpe o inverno da alma e a inadequação ao mundo. Abandonou a economia, apenas cursada para acalmar os pais sobre seus destinos, e partiu para a aventura nas ruas. Flanou por São Paulo atrás de vestígios dos homens nas calçadas e nos cemitérios. E reproduziu tudo o que lhe saltava aos olhos, sem nunca, a partir daí, pausar. Eis que representaria o existente enquanto revelasse as sombras do outrora grande centro da cidade, navegando em oscilante baleeiro rumo à caça de personagens. No decisivo ano de 1964, daquele seu convés de metáforas, combateu o Leviatã sem bala ou alçapão.

A rua, para Carlos Moreira, significou esse oceano de inconsciência e espiritualidade retratado à perfeição no Moby Dick de Herman Melville. Tão logo uma Leica lhe caiu nas mãos, viu-se entranhado em um novo e duro ofício, mas, na contramão dos tempos vigentes, não guerrilhou por ele. Foi, em lugar disso, o fotógrafo para quem caçar, de modo a revelar-se, representou o principal sentido de viver. Nada do condicionamento dos estúdios, nada de fotojornalismo. Distante da quentura dos acontecimentos, ele roubou da vida uns instantes eternos, elegante como o gato, atento como o pássaro ao fugir. Essencialmente, olhou para os lados, como ensinou o francês HenriCartier-Bresson, jamais esquecido da linha de ouro que guiava a um só tempo sua cabeça, o olho e o coração.

Agora que a editora
Tempo d’Imagem, associada às Edições Sesc, lança São Paulo (204 págs., R$ 95), sob a organização de Rosely Nakagawa, o fotógrafo aparece ao grande público com a inteireza de sua poesia geométrica, iniciada após a desilusão com a frieza normativa do Foto Cine Clube Bandeirante, mas muito próxima da proposição livre do grupo Novo Ângulo. O volume organiza cem imagens de 700 mil por ele colhidas desde os tempos em que somente seria possível ao escritor Júlio Verne compreender a máquina fotográfica sem filme. O livro representa um grande momento para esse artista de imagens definitivas que ainda fotografa todos os dias, em São Paulo, Santos ou Buenos Aires, muito alegre, sem jamais lamentar a possível inexistência de homenagens, exposições ou edições de Prêmio Jabuti para suas descobertas. É a fotografia, especialmente o que o artista entende por ela, o que faz Carlos Moreira, como diz sua conselheira, sócia e assistente de três décadas Regina Martins, “acordar embriagado”, sem se dar conta do que pensam de sua embriaguez.

“Quando me aproximei dos 50 anos de fotografia, temi estar morto”, diz a CartaCapital em seu estúdio na Barra Funda, no mesmo prédio onde ele e Regina ocupam dois apartamentos residenciais. Desde quando, consagrado, significará que não vive? Moreira pensa muito, começa e termina um raciocínio com a perfeição do círculo, longe de se iludir. Principalmente, agita-se na cadeira de estofado avermelhado em seu misterioso andar térreo. Ele não tem as respostas, porque está no mundo para perguntar. Ainda hoje, mal começa um caminho, percebe outro a percorrer. As tantas ideias contrastam com seu ambiente de trabalho e reflexão, nunca iluminado ao excesso, os móveis onde quase sempre estiveram. É ali que, semanalmente, manta ao colo, ele traça aos fotógrafos e aos enfileirados candidatos à fotografia sua particular história do ofício, a única muitas vezes feita por qualquer um em qualquer tempo.

Seus toques de mestre tiveram início em 1971, quando, convidado a dar aulas de Fotografia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, passou a refinar com prazer o olhar dos outros e, de quebra, o seu próprio. A partir de 1990, as lições passaram a ser ministradas no endereço em que hoje vive. Houve tempo em que imaginou abandonar os alunos para apenas se dedicar àquilo que é. Mas, reviravolta esperada, neste momento não pensa mais assim. Agora, além de fotografar, quer dar aulas até morrer, ali mesmo na gruta de sabedoria onde se acumulam seus livros sobre os grandes da imagem, de Cartier-Bresson a Robert Frank, de Ernst Haas a André Kertész, e também aqueles inúmeros sobre pintura, colocados em estantes de aço sob ordem rigorosa e particular. Os desenhos e as telas de autoria dele próprio se espalham entre as lembranças naquele térreo. A câmera com fole, a velhíssima tevê, a manta sobre o colo nos dias não raro frios e, claro, as fotos, como a de Cartier-Bresson com a xícara aos lábios, somam-se na decoração ao pequeno ventilador.

Os olhos de um visitante, portanto, enchem-se de serviço enquanto o fotógrafo jamais descansa. Se muitas vezes chega a uma definição sobre o ofício, pode no dia seguinte rejeitá-la. Tendo aprendido a meditar na sofrida e estonteante Índia, usufruído Nova York e pausado algum tempo em Tóquio, pratica o raciocínio como um vinho saboreado em goles de gravidade. Neto de pintora que estudou em Florença mal terminado o século XIX, filho da mulher sensível e observadora que a seu lado, dentro do carro, notava os passantes enquanto seu pai fazia visitas médicas, Carlos Moreira surge longevo e inquieto como quase todos os grandes fotógrafos do século XX. Mesmo agora, aos 77 anos, passa por menino.

Por isso talvez ande aborrecido com a transcendência que ele mesmo, e sempre, perseguiu em sua arte. É um fotógrafo apolíneo, visualiza as linhas perfeitas, mas crê que uma mudança sem volta se encarne nele em direção ao que desce. Foi-se o tempo em que se realizava ao imitar a lua clássica no céu claro. Agora, ele a quer refletida na água trêmula. Menos inspirado no suíço-americano Robert Frank, que a certa altura de seu trabalho canônico, com a morte dos filhos, pintou o sangue nas paredes, e mais como o russo Alexey Brodovitch, que rompeu a norma ao fazer o movimento fluir no balé, em lugar de congelá-lo, Carlos Moreira quer seguir uma ideia de D. H. Lawrence sobre a poesia. O romancista inglês a via em dois tipos, a tradicional e a do presente. A primeira, cristalina, completa, infundia-se no artista com um senso de eternidade. A segunda, imperfeita, nada consumava. Sua opção é clara entre as duas. “Busco a imanência não pela vontade, mas em razão de uma dinâmica psicológica”, ele explica. “Em vez de andar atrás da luz transcendente, branca, procuro a luz enterrada, colorida, porque me convenci de que há perfeição na profundeza.” Carlos Moreira vencerá o enigma estético? O certo é que tudo fará rumo a uma categoria superior de alegria.

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