Você está aqui: Página Inicial / Revista / Como o PCC planeja dominar o Brasil / Nosso Príncipe Submarino
Número 789,

Cultura

Cariocas

Nosso Príncipe Submarino

por Carlos Leonam — publicado 07/03/2014 09h50, última modificação 07/03/2014 10h01
Pioneiro do surfe no Brasil, Arduino Colasanti morreu dia 22. Fazia sol, como nos antigos verões em que nadava no Rio
Arduino Colasanti

Príncipe do mar. Italiano de origem e carioca de coração, Arduino Colasanti inovou na pesca submarina no Brasil

Ele chegou ao Rio com 11 anos. Ele e a irmã, Marina Colasanti. Ele, nascido em Livorno, na Toscana, Itália; ela, em Asmara, Abissínia. Logo, logo se tornaram cariocas. Mais precisamente garotos do Arpoador, ao lado de uma turma que também deixou nome no bairro e no noticiário: Jorge Paulo Lemann, Ira Etz, Bea Feitler, Jomico Azulay, Duda Cavalcanti, Ana Maria Magalhães... Ele morreu sábado, dia 22 de fevereiro. Sim, Arduino Colasanti morreu, aos 78 anos, num dia ensolarado como o de outros verões em que fora um filho de Netuno, um príncipe do mar.

O mar parece ter sido feito para Arduino e Arduino para o mar. Um dos pioneiros do surfe no Brasil, foi dos primeiros a praticar um esporte que estava surgindo em outras águas, e, aqui, graças a ele e a outros rapazes, como Bruno Hermanny, a caça submarina.
Logo, no primeiro campeonato mundial realizado em 1963, no Rio, Arduino foi campeão. Não era para menos, pois conhecia o mar à sua volta como ninguém – as águas das Cagarras, da Raza, da Comprida, da Redonda, das Tijucas.

Sem esquecermos a Lage de Santo Antonio, aquela espuminha que aparece quase em frente da Vinicius de Moraes (a antiga Montenegro), em Ipanema, nos dias de ressaca. Poucos sabem que ali está um pesqueiro que Arduino conhecia como poucos.
Eu me lembro do dia em que a praia estava repleta. Arduino apareceu, de roupa de neoprene, óculos, tubo, pé de pato e a arma de caça submarina. Entrou n’água e sumiu. Horas depois reapareceu, com uma penca de peixes que pegara na Lage de Santo Antonio.

As meninas de seu fabuloso harém deram gritinhos de prazer. A rapaziada, que morria de inveja diante do sucesso dele com o mulherio, fingiu que nada via. Coisas da vida, diria Kurt Vonnegut.

Conheci bem o Arduino daqueles tempos míticos, apresentado por Marina Colasanti. Chegamos, os três, a ir juntos, certo dia, assistir ao O Incrível Exército de Brancaleone. Foi, digamos, uma experiência única. Os irmãos morriam de rir em cenas sem graça nenhuma para os demais espectadores. O filme tinha ainda muito mais graça para eles, já que é uma sátira aos feitos da história oficial italiana que lhe haviam ensinado.

Anos 70. Ivo Pitanguy estava se iniciando nas artes de caçador submarino e levou Arduino, Yllen Kerr e a mim para mergulhar em Cabo Frio. A lancha poitou ao largo do Focinho do Cabo, a ponta do cabo propriamente dita. Arduino pulou n’água e fui junto. Queria acompanhar o campeão mundial e depois dizer que havia mergulhado com ele. A façanha levou alguns minutos.

Lá embaixo, uma arraia jamanta, que dormitava sob a areia, houve por bem decolar. The Flash: qual num desenho animado, pulei para dentro da lancha. Arduino apareceu, rindo à beça. Explicou que o bicho não atacaria ninguém. Eu, hein, Rosa...

Arduino foi também ator, um dos preferidos de Nelson Pereira dos Santos. Nunca se afastou do mar, tendo sido, já cinquentão, mergulhador da Petrobras. Foi um namorador emérito, homem pelo qual todas as mulheres se apaixonavam ou se apaixonaram. Não um Casanova ou um Dom Juan a se vangloriar de seus feitos galantes. Arduino Colasanti foi um cavalheiro por toda a sua vida aventurosa. Um príncipe. Nosso Príncipe Submarino.