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Número 789,

Política

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Mamelucos da Apple

por Vitor Knijnik — publicado 14/03/2014 03h35, última modificação 14/03/2014 04h35
Estava indignado por não ter uma loja da Apple aqui por perto. Agora, só resta me resignar por não ter comparecido ao evento
Do Blog do Darcy Ribeiro
Darcy Ribeiro

Antropólogo, escritor e político. Sou uma mistura de sertanejo, crioulo, cabloco, caipira e sulista. Se eu fosse escolher hoje um gênero musical para me representar, seria um afro-samba-funk sertanejo universitário de ostentação

Como disse certa vez, só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. Estava indignado por não ter uma loja da Apple aqui por perto. Agora, depois da abertura da primeira Apple Store no País, só resta me resignar por não ter comparecido ao evento, pois, como antropólogo, gostaria de ter presenciado tudo. De certa maneira, os tupinambás que foram à inauguração, ao cantarem a plenos pulmões Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor, celebrando os Macs e iPhones mais caros do mundo, não deixaram de fazer um ritual antropofágico de suas economias e do bom senso.

Pelo grau de importância e devoção que nosso povo demonstrou, é de se pensar em renovar meu antigo e emblemático projeto: os CIEPs. Que agora poderiam ser convertidos em CIEAPPLES – Centros Integrados de Enamoramento da Apple. Com atendimento em horário integral.

O episódio da inauguração, por uma série de motivos, pode ser considerado emblemático. Por um lado, mais uma vez, ficou clara a nossa miscigenação: somos um experimento original, uma civilização mestiça, filha do escravo e do senhor de engenho. E do pajé, do padeiro e do camelô também. Dos índios herdamos a capacidade do convívio; dos negros a espiritualidade; dos europeus a tecnologia. Dessa mistura toda uma sabedoria peculiar e um gosto duvidoso. E dos americanos do Norte herdaremos as prestações.

Entretanto, por outro lado, podemos entender aquele momento como a consagração de um novo referencial para a análise do povo brasileiro pelas ciências sociais. Os gritos de “Brasil!” e a cantoria são parte de uma manifestação nacionalista. Associe-se a isso a questão da valorização da natureza, visto que se tratava de uma loja da Apple, representada por uma maçã. O quadro se completa com as sacolas carregadas na saída da loja, traço marcante da nova identidade brasileira. Em alguns países, já se estuda, inclusive, abolir o uso de passaporte para os brasileiros, bastando apenas a observação de quantas sacolas da Zara e da Abercrombie o cidadão porta no momento da passagem pela alfândega.

Independentemente de qualquer discussão que se possa ter, creio que a inauguração da Apple Store no Rio foi uma maneira de o povo brasileiro se reencontrar com sua história. Nosso passado colonial mais remoto esteve presente com intensidade. Os produtos da Apple são os novos espelhinhos de tela Retina dos colonizadores e, não resta dúvida, os vendedores da loja foram treinados por jesuítas, os únicos aptos a controlar o gentio rolezeiro. Mas as maiores diferenças são que os espelhos de antes não trocavam de plugue de tempos em tempos, nem os índios achavam que aqueles artefatos representavam uma conquista de seu povo.

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