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Número 789,

Cultura

Gastronomia

A verdade certificada

por Marcio Alemão publicado 06/03/2014 05h18, última modificação 07/03/2014 16h00
Diplomas, plaquinhas, ISOs não têm nada a ver com o que vem ao prato

Nunca é demais repetir que esta coluna expressa minha opinião e, principalmente, meu paladar. Muitas foram as vezes que me mostrei irritado com a expressão “o verdadeiro sei lá o que se faz assim”. As plaquinhas, os diplomas, os certificados e o ISO 768889/22Z que lhe garantem que, por exemplo, a verdadeira comida chinesa você encontra nesse estabelecimento, são jogadas, até bem velhinhas, de marketing.

Tirou nota 10 no quesito obediência à lei. Infelizmente, a obediência não teve eco nas panelas. Ainda batendo no mesmo prego: você prova um spaghetti alla carbonara com pancetta; outro com bacon; outro com guanciale (bochecha de porco). Para surpresa dos legisladores da cozinha, você encanta-se com o que foi preparado com o bacon e não quer saber de outro. Sabia que o verdadeiro carbonara é feito com guanciale?

Uma opção é você admitir que não tem paladar, que é uma pessoa ignorante. Culpar a mãe e a avó é uma ideia excelente. Alegue que sua avó só usava bacon e você ficou com essa memória afetivo-gustativa. Recuse convites para jantares. Peça desculpas: “Eu não tenho bom paladar. Posso achar uma droga o verdadeiro estrogonofe que você vai preparar e preferir o que eu faço com ketchup”. Caia de boca nos antidepressivos.

Tornar-se vegano radical pode parecer uma boa alternativa, mas imagine você feliz no novo grupinho, mastigando uma cenoura que você trouxe de casa. Um amiguinho pede um pedaço e você, feliz, compartilha. O amiguinho morde sua cenoura e cospe tudo: “Onde você comprou essa coisa horrorosa?” Você encontra forças entre soluços e lágrimas para responder: “No Viva Verde Orgânico”. Para ouvir: “Você ainda não sabe que a verdadeira cenoura é aquela biodinâmica que vem do Butão?”

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