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Número 789,

Internacional

União Europeia

A juventude no poder

por Claudio Bernabucci publicado 05/03/2014 05h08, última modificação 05/03/2014 05h51
Na Itália, Matteo Renzi assume à testa de um governo enxuto, com 47,8 anos de idade média. Por Claudio Bernabucci, de Roma
ANDREAS SOLARO / AFP
Renzi

O novo premier italiano, Matteo Renzi (D), conseguiu a aprovação do Parlamento

De Roma

Conforme as previsões, Matteo Renzi, encarregado pelo presidente da República, Giorgio Napolitano, de formar um novo governo, conseguiu a aprovação do Parlamento italiano, a chamada confiança. Amplíssima a maioria que obteve na Câmara dos Deputados, mais apertada no Senado, onde os votos favoráveis chegaram a 55%. Números e composição do governo são surpreendentes, tanto quanto os primeiros passos do novo premier. Trata-se de somente 16 ministros, entre eles oito mulheres, que, com poucas exceções, são quase desconhecidos do grande público. Mais do que o alto perfil, parece que o novo chefe de governo privilegiou, além da inovação, a fidelidade da sua turma. Daí, supõe-se que a eventual falência dessa experiência, como o próprio Renzi comentou, cairia exclusivamente sobre seus ombros.

O discurso de Renzi no Senado, onde ele apresentou governo e programa, foi decididamente anticonformista e deixou desorientados os políticos mais velhos. Pela primeira vez na história republicana, o primeiro-ministro fala sem ler o próprio discurso, com as mãos no bolso, improvisa bate-bocas e dispensa ironia à oposição. Flana sobre o conteúdo do próprio programa e se caracteriza mais por estilo e atitudes do que por compromissos concretos. Alguém falou de revolução, mas isso é pelo menos sinal de que um pedaço de história acabou. Depois do ventennio berlusconiano e da incolor transição dos governos tecnocráticos, entra em cena a nova política de Matteo Renzi. Pesadelo ou esperança da nação?

Na sua primeira mensagem, ele deu clara impressão de querer dialogar mais com os cidadãos do que com os políticos, com linguagem simples e direta: por um lado, reflexo do seu perfil de ex-prefeito, por outro, claro sinal de que com certa política as relações estão cortadas. O auge dessa orientação se deu quando, dirigindo-se aos senadores, expressou em um primeiro momento respeito pela majestade e história da casa, mas em seguida formulou a esperança de ser o último primeiro-ministro a pedir a confiança ao Senado. Em outros termos: “Hoje peço o voto de vocês, senadores, para governar, mas saibam que daqui a pouco vou pedir também que votem a supressão do Senado, ou seja, a própria autoeliminação”. Sem dúvida, não lhe faltou coragem.

Matteo Renzi dedicou acentuada ênfase aos temas educação, simplificação burocrática e Europa, mas seu discurso foi julgado mais de campanha eleitoral do que de programa de governo. Com impostação pós-ideológica e explorando o carisma, sua primeira intenção foi de transmitir otimismo, coragem, ambição ao país deprimido pela crise. Em relação ao anterior, o novo governo não pode gabar-se por trazer novidade política e, portanto, por caracterizar-se pela mudança geracional, pelo estilo agressivo e pela personalidade do líder emergente, bem como pela pressa de resolver os problemas dos italianos.

Os concidadãos parecem apreciar a nova onda: segundo pesquisa do Instituto Piepoli, a aprovação ao chefe de governo pulou para 57%, enquanto a do presidente da República, Napolitano, não passa de 53%. Berlusconi, um ectoplasma nas estatísticas desses dias, só tem 18%.

Ante as Câmaras, o novo premier indicou radicais inovações e reformas, mas não entrou em muitos detalhes em relação a conteúdo, modalidades e custos. Nada falou sobre como sustentar a diminuição dos impostos trabalhistas ou as medidas de assistência para os desempregados. O novo ministro da Economia, Pier Carlo Padoan, provavelmente o único nome indicado a Renzi pelo presidente da República, é um economista do Partido Democrático com prestígio internacional e fama de esquerdista. Ele terá de trabalhar finamente para dar à Europa a garantia de que a Itália se manterá como parceiro confiável, enquanto se dispõe a pedir a renegociação dos acordos em vigor. Com a inflação europeia em 0,7% e a italiana em 0,6%, a nova ameaça é que a crise tome ares de deflação, de modo que a participação italiana no esforço de evitá-la é fundamental. Por um lado, o novo governo exige menos rigor por parte da UE e, por outro, não pode se permitir que a dívida aumente graças à deflação.

Enfim, o novo governo é quase unanimemente visto como última chance dos italianos antes da barbárie, mas até agora só se sabe o nome do comandante que guiará a batalha. Modalidades e alianças permanecem indefinidas. Não se exclui que a ação de Matteo Renzi reserve surpresas a cada dia.

Na tentativa de interpretar o pensamento autêntico de um líder que proclama a transparência, mas se autodefine em termos generalizantes, particular atenção suscitou recentemente uma nova edição de Direita e Esquerda de Norberto Bobbio, com comentários de Daniel Cohn-Bendit e Matteo Renzi. O italiano afirma que o paradigma igualdade e desigualdade, como característica fundamental que identifica esquerda e direita, já não basta para interpretar a realidade contemporânea, em que a esquerda precisa se renovar e ir além da tradição social-democrata e liberal-socialista para continuar existindo, a fim de “distinguir dinâmicas sociais que interessem aos últimos e aos excluídos, e, finalmente, representar seus interesses”. O florentino Matteo Renzi demonstra-se, portanto, audaz também na revisão ideológica.

As palavras de outro florentino, Maquiavel, o clássico do século XVI, talvez sejam úteis para interpretá-lo mais do que tantas outras observações de nossos dias. Escrevendo, no capítulo XXV da sua obra-prima, sobre o Príncipe que poderia mudar os destinos infelizes da Itália, ele afirma: “Creio, ainda, seja feliz aquele que acomode seu modo de proceder à natureza dos tempos (...) Considero melhor ser impetuoso do que dotado de cautela, porque a fortuna é mulher e consequentemente se torna necessário, querendo dominá-la, bater-lhe e contrariá-la; e ela mais se deixa vencer por estes do que pelos que procedem friamente. A sorte, porém, como mulher, é sempre amiga dos jovens, porque são menos cautelosos, mais afoitos e com maior audácia a dominam”.

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