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Número 788,

Economia

Análise / Paul Krugman

O mito conservador

por Paul Krugman — publicado 26/02/2014 04h59
Há importantes benefícios na expansão do seguro-saúde a serem pesados contra os custo

Em artigo para The New Republic, Jonathan Gruber, eminente economista da área de saúde pública e o arquiteto da reforma da saúde, escreveu sobre sua irritação com Casey Mulligan, que interpretou mal as opiniões de Gruber, e também as minhas, em coluna recente no site do New York Times.

Gruber tem razão de estar bravo: foi uma coluna vergonhosa e enganosa. Mas eu acho que devemos encaixar isso na imagem maior: o velho mito do economista progressista estúpido.

Sobre Mulligan, economista da Universidade de Chicago: como documentou Gruber, ele deu vários golpes rápidos em sua coluna, afirmando coisas que, segundo ele, eram conclusões de um relatório do Departamento de Orçamento do Congresso. Mas não eram, eram as próprias opiniões de Mulligan, tiradas do nada, projetadas sobre o Departamento de Orçamento para fazê-las parecer sérias.

Além disso, Mulligan disse aos leitores que Gruber e eu somos burros ou covardes demais para admitir que os desincentivos ao trabalho criados por alguns aspectos da Lei de Acesso à Saúde dos EUA impõem custos econômicos.

Suspeita-se que Mulligan realmente não leu alguns artigos para os quais havia links em sua coluna. Se tivesse lido, encontraria isto, de um editorial no Los Angeles Times escrito por Gruber: “A CBO (Comissão do Orçamento do Congresso dos EUA, em inglês) também projeta uma redução de trabalho por indivíduos que encurtam seus horários ou evitam promoções no emprego para não perder o direito ao Medicaid, ou para não ganhar um salário tão alto que os fizesse perder os benefícios fiscais para ajudar a pagar pelo seguro. Diferentemente da saída voluntária do emprego, esse segundo tipo de redução do trabalho provocaria verdadeiras distorções econômicas e seria um custo, e não um benefício”.

E isso de um texto meu: “Só para ser claro, a redução prevista nas horas trabalhadas em longo prazo não é totalmente uma coisa positiva. Os trabalhadores que escolherem passar mais tempo com suas famílias ganharão, mas também imporão certo peso ao restante da sociedade, por exemplo, pagando menos Imposto de Renda. Por isso, há algum custo do Obamacare além dos subsídios ao seguro”.

Portanto, nós dois reconhecemos que há consequências do incentivo e que elas têm um custo. Mas nós dois afirmamos sobre bases quantitativas que o custo não é grande. Dificilmente o liberalismo doutrinário que Mulligan pensou ter visto.
Vamos para um ponto mais amplo. O que vemos particularmente na coluna de Mulligan é o mesmo mito conservador sobre economistas progressistas que encontro o tempo todo, em muitos contextos.

Funciona assim: os conservadores em geral, e os economistas conservadores em particular, muitas vezes têm visão muito estreita do que é a economia, ou seja, a oferta, a demanda e os incentivos. Qualquer coisa que interfira com o sagrado funcionamento dos mercados ou reduza o incentivo à produção deve ser ruim. Sempre que um economista progressista apoiar políticas que não se encaixam perfeitamente nessa ortodoxia, deve ser porque ele não compreende a economia básica. E os economistas conservadores estão tão certos disso que não se incomodam de realmente ler o que os progressistas escrevem.

Em consequência, muitos conservadores parecem totalmente incapazes de absorver a ideia de que pessoas como Gruber ou eu podemos entender de economia básica, mas também acreditamos com bons motivos que é preciso ir além desse ponto.

Sobre a questão do seguro-saúde: sim, há consequências do incentivo, como em todos os seguros. Mas também há um bom motivo para acreditar que existe uma grande imperfeição do mercado na forma de paralisia no emprego: os empregados que se sentem presos em seus empregos por não terem certeza se conseguiriam seguro-saúde subsidiado caso trocassem. E que mesmo fora disso há importantes benefícios na expansão do seguro-saúde a serem pesados contra quaisquer custos. Em suma, tudo isso está nos artigos que Mulligan denunciou, e em muito maior extensão em outros textos nossos. Mas, como acontece frequentemente, os conservadores desenvolvem problemas de compreensão de leitura sempre que surgem essas questões.

Encontrei reações semelhantes sobre muitas outras questões. Você está dizendo que gastar com déficit é útil em uma economia deprimida? Na verdade você deve estar dizendo que os déficits e um governo maior são sempre bons, o que é estúpido, ha-ha-ha... Bem, alguém está sendo estúpido, de qualquer maneira.

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