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Número 787,

Política

Cariocas

Violências

por Carlos Leonam — publicado 16/02/2014 09h06
Cadê aquela Lagoa Rodrigo de Freitas em que o garoto Jobim tomava banho e pescava paratis?
Ipanema

O lendário píer de Ipanema visto do Arpoador (anos 70): todos se conheciam

Não se trata de uma hora da saudade. É que o cronista Joaquim Ferreira dos Santos, garimpeiro das coisas cariocas, escreveu esta semana sobre um Rio que, ano após ano, tem deixado de ser tão maravilhoso assim. Apesar de cantado em prosa e verso por escribas de todas as origens, desde que Estácio de Sá fundou o que dom Pedro II, bem mais tarde, chamaria a mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Rubem Braga já havia previsto que Copacabana haveria de um dia não ser mais o bairro sonho de consumo dos outros brasileiros, com a especulação imobiliária o descaracterizando, como aconteceria, anos depois, com Ipanema, hoje uma nova Copacabana.
Foi-se o tempo em que Ipanema era um bairro residencial em que praticamente todos se conheciam, em que a Banda de Ipanema era uma brincadeira familiar, o Arpoador uma praia apenas dos primeiros surfistas e onde as garotas ousavam usar os primeiros biquínis, para faniquito de suas mamães.

Dou a palavra a Joaquim: “Alguém que chegue à Praça General Osório, berço da Banda de Ipanema, e, olhando ao redor, pergunte ‘isso aqui ainda é Copacabana?’, não passará por maluco. (...) O metrô, por sua vez, vai chegar ao Leblon (...). Este vai ficar igual a Ipanema. Que hoje está igual a Copacabana”.

O Rio, tomando-se como referência Copacabana, Ipanema e Leblon, realmente foi mudando muito, desde as últimas décadas do século XX. Não há moças janeleiras, não se ouve mais o som das aulas de piano nas ruas, antes calmas, e não violentadas por restaurantes, churrascarias e butiques de grifes multinacionais. Nem as praias da Lagoa Rodrigo de Freitas, em que o garoto Tom Jobim tomava banho de mar e pescava paratis.

Um assaltante pode estar de tocaia em cada esquina ou nas calçadas da Avenida Atlântica ou da Vieira Souto ou da Delfim Moreira. O trânsito vem piorando, dia após dia, e as calçadas passaram a ser usadas por ciclistas, que se acham em missão ecológica, os pedestres que se danem.

As praias – antes tão curtíveis – perderam aquela quase privacidade, eram um lugar onde quase todos se conheciam. Aquele ponto de encontro. Viraram o paraíso dos arrastões de assaltantes, dos ambulantes vendendo um inacreditável cardápio – tem até comida japonesa.

Tudo, claro, a preços surreais, escorchantes, que vêm transformando os moradores locais em farofeiros, digamos, chiques, que levam em isopores e caixas térmicas a sua matula, para fugir do achaque do comércio na areia.

Mas não devemos perder a esperança. Como dizia o poeta Vinicius, “ninguém é carioca em vão”. Stefan Zweig escreveu que, no Rio, a vida pode ser boa para todos, “pois é mais fácil ser pobre aqui do que em outra cidade”.

Outro dia, o arquiteto Paulo Casé, carioca da gema, me dizia e o cito de cabeça, pois não sabia que estaria escrevendo sobre o assunto: “Viver no Rio representa tal distinção que me aflige imaginar não ter nascido aqui. Apesar de reclamar muito, me considero um homem de sorte”.

Eu também.

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