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Número 787,

Sociedade

Refogado

Sorvete todo dia

por Marcio Alemão publicado 15/02/2014 09h04
Memórias cálidas com sabor gelado ajudam a entender um novo fenômeno
Flickr / Raios de Luz - Gláucia Góes
Sorvete

Poucos podem imaginar a alegria de receber, no meio da semana, após o jantar, um convite dos pais: e se a gente fosse tomar um sorvete?

E não é que o paulistano decidiu tomar sorvete?! Claro que a temperatura tem ajudado. Mas, antes mesmo desse surto desértico ter se abatido sobre nós, tomar sorvete passou a ser um hábito, que era restrito à praia e aos domingos de verão.

Ir tomar um sorvete era um programa. Está deixando de ser. Melhor dizendo: como tudo que abunda, deixa de ser especial.

Poucos podem imaginar a alegria de receber, no meio da semana, após o jantar, um convite dos pais: e se a gente fosse tomar um sorvete?

Muito perto de casa a Sorveteria Ypê tinha como dono um senhor italiano e, se minha memória não falha, trouxera a máquina da Itália. Salvatore seria o nome dele?

Minha mãe, nunca esqueci nem a perdoei, quando achava que eu não estava bem – sim, por vezes a minha mãe tinha certeza de que eu estava escondendo alguma indisposição, minha cara não estava boa e, por causa desses profiláticos sentimentos, determinava que eu seria privado de algum prazer: brincar na rua ou, no caso da casa do seu Salvatore, tomar sorvete. Houve um tempo, o tal imperdoável, que ela me dava chantili dizendo que era sorvete. Claro, um sorvete não gelado. Se fosse de fato verdade, a sorveteria Ypê teria entrado para a história como a única a oferecer sorvetes à temperatura ambiente.

Quando voltava a gozar de plena saúde, lembro bem que era de boa qualidade o sorvete de lá. Agora tento comparar sem que a memória arme das suas, puxando a brasa para a sardinha da nostálgica melancolia (sardinha da nostálgica melancolia! hahahaha) e me leve a afirmar que o sorvete do Dirceu, na cidade de Pedreira, interior de São Paulo, era o melhor de todos.

Imagine um bando de moleques que passa o dia matando passarinhos, subindo em mangueiras, atirando pedras com estilingue feito de galhos de goiabeira em casas de abelha e velhas vidraças. Imagine essa molecada encerrando o dia com chave de ouro mágica na Rural Willys do avô, indo até a sorveteria do Dirceu. Não há Bacio di Latte que seja mais delicioso que essa memória. Ainda assim, digo que o sorvete de milho verde de lá era imbatível, assim como o picolé de groselha.

Voltando à nova mania do paulistano, o lado muito bom dessa descoberta: estamos tomando sorvetes de alta qualidade e não apareceu nenhum chato para dizer que são gourmets e que o de amêndoas apresenta notas de carvalho e baunilha.

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