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Número 787,

Internacional

Itália

O inevitável acontece: Renzi em lugar de Letta

por Redação — publicado 14/02/2014 11h40
O líder do PD será o novo premier. Por trás da manobra, a figura indispensável do presidente Giorgio Napolitano
Gabriel Bouys Vincenzo Pinto / AFP

A corda, esticada em demasia, rompeu-se. Na sexta-feira 14, o premier italiano Enrico Letta, entregou sua demissão ao presidente da República, Giorgio Napolitano. Encerra-se assim aquele que, como se pretende agora, haveria de ser apenas o primeiro capítulo da história do governo dito “dos grandes entendimentos”, nascido das eleições do ano passado e da impossibilidade de compor, de outra forma, uma maioria estável. Resta ver se realmente haverá um segundo capítulo, ou seja, a reedição da aliança espúria entre direita e esquerda, a bem da salvação nacional.

Letta é um ex-democrata-cristão de esquerda, filiado ao Partido Democrático desde sua constituição, de maioria ex-comunista. E foi o partido que precipitou a sua saída, em reunião realizada na quinta 13 por sua direção. Ao abrir os trabalhos, o líder recém do PD, Matteo Renzi, prefeito de Florença, colocou as cartas na mesa: “Não se trata de processar o governo – disse ele –, e sim de compreender se temos condições de escrever uma nova página”. E acrescentou: “Chegou a hora de sair do pântano”. O fim do governo Letta foi aprovado em seguida por 136 votos contra 16.

O confronto entre Letta e Renzi decorre mais das diferenças de caráter e temperamento do que das ideias. Renzi, aliás, é também um ex-democrata-cristão. Ágil, contudo, aguerrido, determinado, enquanto Letta é circunspecto e hesitante. Seu governo foi incapaz de produzir as reformas profundas indispensáveis à tentativa de recuperação e o único avanço se deu em relação à economia, mínimo e insuficiente, ao passo que aumentavam os índices de desemprego. A Itália vive um momento de extrema dificuldade, e isto sobretudo explica o resultado da queda de braço entre Renzi e Letta.

Como aconteceu no ano passado, por trás da manobra situa-se a grande figura em exercício na política italiana, o presidente Napolitano. Ele recebeu Renzi na quarta 12 e, obviamente, lhe deu sinal verde. Com uma condição: impedir novas eleições a curto prazo, na ausência de uma lei eleitoral capaz de garantir a formação de uma maioria duradoura. Renzi, que certamente será chamado a liderar o novo governo, a se valer das mesmas alianças comandadas por Letta como primeiro-ministro e Angelino Alfano, líder da Nova Direita, seu vice, anunciou o próximo pleito somente para 2018.

Até lá, deveriam valer os falados “grandes entendimentos”, sempre que habilitados a realizar as reformas indispensáveis, a começar pelo trabalho e pela nova lei eleitoral, destinada a substituir o porcellum, o porco, como a atual é chamada. Quem pode levar alguma vantagem na situação é o incansável Silvio Berlusconi, decisivo no momento para a vida do governo no nascedouro e com quem Renzi já se entendeu ao sabor do pragmatismo. O líder do PD disse, porém, com todas as letras, que jamais governará com o ex-sultão. Sem contar que, decerto, confia na prisão domiciliar iminente de Berlusconi, e nas futuras, inescapáveis condenações.