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Número 787,

Cultura

Memória

Humor sereno

por Rosane Pavam publicado 14/02/2014 13h04
Na escrita de Renato Pompeu, o sabor da independência
Heitor Hui / Estadão Conteúdo
Renato Pompeu

O pensador não empilhava coisas para ser exceção às enciclopédias

A chuva caiu fina e comemorada sobre o paulistano no domingo 9 em que, aos 72 anos, morreu Renato Ribeiro Pompeu. É de suspeitar, contudo, que mais sentida naquele dia de verão tenha sido a vitória por 2 a 1 da Ponte Preta, time pelo qual torcia o jornalista e escritor, sobre o São Paulo do poder. Campineiro, autor de 22 obras excepcionais não raro sobre a vida na capital paulista, cidade que ele entrevira em seus livros sobre filosofia, economia, literatura, história, futebol ou loucura, esta admitida para si, conhecedor de inúmeras redações e resenhista de livros da CartaCapital (um texto seu inédito é publicado na página seguinte), Renatão padeceu de um edema pulmonar sem ter saboreado esses dois pequenos milagres dominicais.

A Ponte Preta, explicava ele com a serenidade do humorista, era Campeã Eterna no Paraíso, mesmo sem jamais ter vencido um campeonato na Terra. E seria melhor assim, porque, conforme previra sua tia-bisavó mãe-de-santo, quando essa Ponte Preta ilusória fosse Campeã Paulista, o Campeonato Paulista nunca mais seria disputado. Do mesmo modo, se fosse Campeã Brasileira, o Campeonato Brasileiro iria acabar. Vencesse o Campeonato Mundial, o futebol estaria no fim.

A Ponte era a medida do mundo. E por que não caberia na régua mística o próprio Pompeu? Se ele vencesse, como ficaríamos? O mundo não haveria, eis por que esse pensador não ganhava dentro dele, embora se tratasse de perder em termos. Porque, se vencer significava somar bens a consumir, Pompeu nem mesmo começara a conta. Ele não empilhava coisas para ser, exceção às enciclopédias. E, como bom perdedor, dizia e escrevia as verdades com direção certa.

Estudou muito marxismo antes de opinar. Leu os gregos, para ele apenas repetidos nas boas ficções, exceção feita a James Joyce e seu Finnegans Wake. Sua convicção sobre a igualdade entre os homens era absoluta, embora alguns deles tivessem se tornado tão pouco humanos. No dia em que o jornalista morreu, choveu em São Paulo, a Ponte ganhou e o mundo ficou mais pobre, mas pelo menos ainda é mundo, o que nos leva à clássica pergunta de Renatão quando lhe contavam uma novidade: “Mas isso é bom ou isso é mau?”

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