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Número 785,

Economia

Davos

Dilma em Davos

por Delfim Netto publicado 01/02/2014 11h38
A presidenta soube aproveitar a oportunidade para reafirmar que o Brasil sempre preferiu negociar a descumprir os contratos
Eric Piermont / AFP
Dilma

A presidenta em seu discurso em Davos

Três temas importantes tiveram destaque no denso discurso no qual a presidenta Dilma Rousseff expôs a situação da economia brasileira durante o encontro dos líderes da finança mundial, na gelada montanha suíça de Davos, no penúltimo fim de semana de janeiro.

Em pouco mais de 40 minutos que mereceram aplausos (num nível até um pouco acima dos protocolares), a presidenta descreveu os programas de seu governo mostrando um conhecimento bem maior dos problemas do que eles imaginavam. Fez a defesa de sua administração, dizendo que muitas vezes há queixas de empresários, mas que nunca se posicionou contra o setor privado da economia, nem faz restrições ao lucro, pois “essa é a sociedade em que vivemos”.

Não creio que tenha convencido completamente os participantes, mas mostrou os resultados do avanço brasileiro no esforço sério e bem-sucedido para reduzir as distâncias na distribuição da renda entre as pessoas e as regiões, exatamente um dos itens apontados na agenda de Davos como o maior problema para a recuperação da economia mundial.

Aliás, um ponto esquecido “fora da curva” nas reuniões anteriores, de forma até incompreensível, diante do que representa a tragédia dos 40 milhões de honestos trabalhadores que continuam desempregados em razão da crise financeira iniciada em 2007 nos Estados Unidos. Eles são fator importante do aumento dos níveis de desigualdade nas sociedades mais desenvolvidas do globo.

Dilma soube aproveitar a oportunidade para reafirmar uma característica do comportamento brasileiro, que, mesmo em momentos difíceis que nossa economia enfrentou no passado, sempre preferiu negociar os contratos a deixar de cumpri-los. Foi uma lembrança importante num momento em que se procura acusar o governo, aqui e no exterior, de ter desrespeitado contratos quando recorreu a algumas medidas regulatórias nos setores da energia e na questão dos portos.

Nas intervenções e em alguns casos de medidas arbitrárias, ninguém pode apontar desrespeito aos contratos, pois todos estão sendo cumpridos pelo governo federal. É fato que quebras acontecem no âmbito estadual, gerando dúvidas que vão ter de ser desfeitas adiante, mas no nível federal há total respeito aos contratos.

Essas considerações ganharam maior importância num momento em que – à margem da reunião de Davos – o agravamento da situação da economia argentina e alguns fatores de vulnerabilidade nos mercados bancários da África do Sul, Turquia, Indonésia e Índia passaram a oferecer novas oportunidades para a especulação financeira visando tirar as habituais vantagens.

Claramente, a situação do Brasil é muito melhor do que a desses países. Precisamos tomar cuidado com os problemas da Argentina porque é um mercado importante para as nossas manufaturas. Ela precisa de uma desvalorização forte de sua moeda, pois é a única forma de sair da encrenca em que está metida, pagando o preço de erros acumulados em sua política econômica nesses últimos anos.

Muitas pessoas pensavam – como no Brasil, antigamente – que o país podia decretar um “default” e não ter consequência porque o mundo esquece rapidamente. Com esse problema atual na Argentina, mais uma vez está demonstrado o contrário: ela não consegue nenhum auxílio externo. Tem de viver por conta própria e não é por virtude: apenas não tem mais acesso ao crédito.

O ministro da Economia, Axel Kicillof, agiu corretamente porque tinha realmente de produzir alguma desvalorização da moeda argentina, mas as consequências são visíveis: vai haver um dramático corte do salário real. E para que isso não se transforme numa inflação mais importante que a atual – que anularia a desvalorização do câmbio – vai precisar de uma política fiscal extremamente dura.

Será preciso reduzir a demanda interna que não pode ser feita pelo setor privado, basicamente, porque senão vai para uma recessão. Ela precisa ser feita por um corte das despesas do governo ou de um aumento dos impostos, que também vai levar a uma recessão.

A ação do ministro começou na direção correta. Infelizmente, há indicações de que não tinha um programa em mente bem estruturado, porque um dia depois da medida ele promoveu um aumento de imposto, levando a um aumento da insegurança e mostrando que não analisou bem as consequências do que estava fazendo. Isso é muito ruim porque trabalha na direção de acelerar o crescimento dos preços.