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Número 784,

Cultura

Brasiliana

O guerrilheiro das palavras

por Fernando Silva — publicado 12/02/2014 05h58
Eduardo Lacerda e sua editora Patuá, de pequenas tiragens e jovens autores
Veronica Manevy
patuá

"Não é o meu negócio, é a minha vida", descreve o gaúcho Eduardo Lacerda.

acomodado em um sofá na sala do sobrado em Sapopemba, zona leste de São Paulo, Eduardo Lacerda fala de seu amor pelos livros. A moradia serve também de sede da Patuá, editora fundada por ele há três anos, hoje com 155 títulos lançados, a maioria de poesia e de autores estreantes. “Não é o meu negócio, é a minha vida”, resume.

Aos 31 anos, o gaúcho de Porto Alegre espalha a paixão pela literatura em vários espaços da casa dos pais, moradores do bairro desde 1984. São cerca de 10 mil livros do próprio catálogo da editora que tomaram as paredes e a cama de seu quarto. Aos poucos, o sono e as aspirações artísticas e empresariais passaram a ser acalentados no sofá.

O interesse pela literatura é antigo. Na escola, Lacerda pedia aos professores para operar o mimeógrafo e produzia fanzines. Decidido a cursar Letras, ingressou na Universidade São Judas em 2000 com o apoio financeiro dos pais. A vida universitária durou seis meses, até as mensalidades não caberem mais no orçamento familiar. Aos 18 anos, foi ser camelô (vendeu parte das mercadorias restantes de uma recém-falida loja do pai). Em 2001, aprovado na USP, recomeçou o curso e o frequentou até 2005, quando, antes da formatura, trocou a sala de aula por um emprego na Casa das Rosas, tradicional centro cultural na Avenida Paulista.

O novo trabalho proporcionou-lhe contato de artistas e produtores. Lacerda deu asas a um jornal literário, O Casulo, e obteve apoio da prefeitura. Por dois anos dedicou-se exclusivamente à publicação gratuita, dirigida a lançar novos poetas. Em 2009, o município cortou o patrocínio. “Não deu para continuar.” Mais um sonho se acabava abruptamente.

O gaúcho decidiu então redobrar a aposta. Em 2011, após diversos cursos online do Sebrae, uniu-se à então namorada Aline
Rocha e investiu 5 mil reais na criação da Patuá. O objetivo, o mesmo até hoje, era publicar autores estreantes em tiragens modestas, de 100 a 150 exemplares.

Autor de Outro Dia de Folia, de 2012, Lacerda não se considera poeta (“eu escrevo poemas”). Fã de Hilda Hilst e Carlos Drummond de Andrade, diz encontrar satisfação no trabalho de editor. Na função tenta mesclar ensinamentos do tradutor e escritor Vanderley Mendonça e do pai, Claudinei Rodrigues, comerciante e pai de santo. O nome da editora vem, aliás, de um amuleto tradicional na umbanda.

Praticar “a literatura como religião” não é fácil. O editor recebe, em média, cem originais por mês e nem sempre consegue responder no ritmo da ansiedade dos escritores. “Uma vez, o telefone tocou às 6 da manhã. A voz do outro lado queria saber por que não havia lido a obra dele.”

Lacerda precisa vender 50 livros a 30 reais para recuperar os 1,5 mil reais investidos em cada tiragem de cem exemplares. “Editar é fácil, vender é constrangedor”, compara. O catálogo da Patuá pode ser adquirido, em geral, de duas formas: ou comparecer ao lançamento do livro ou encomendá-lo pelo site da editora. A outra opção é o autor se empenhar na venda da própria obra, pois Lacerda prefere não firmar parceria com as livrarias tradicionais.

O editor preocupa-se com o futuro do mercado. Segundo ele, trocar o papel, “um produto que dura 100, 150, 200 anos”, pelo livro digital não faz muito sentido. “É uma tentativa de tornar descartável algo que pode ser mais durável.”

Mas o que exatamente Lacerda pretende construir? “É um trabalho quase monumental para um único indivíduo e é mágico por valorizar o escritor nacional contemporâneo”, afirma Paula Fábrio, uma das vencedoras do Prêmio São Paulo de Literatura 2013 com o romance Desnorteio, lançado pela Patuá.

Conhecida do editor desde 2006, quando ela era dona de livraria e ele trabalhava na Casa das Rosas, a escritora diz aprovar a política da Patuá de lançar iniciantes. “Nas editoras comerciais, não há lugar para estreantes, para quem ainda não tem um público inicial. Originais como o meu nem são lidos.”

Mirar novos talentos segue entre as prioridades para este ano. O plano da editora é publicar, em média, dez livros por mês. O editor pretende ainda alugar um espaço para abrigar o catálogo e lançar a coleção de sete títulos de jovens dramaturgos (1,5 mil exemplares cada) com os 50 mil reais de patrocínio do ProAC, o Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo. Por fim, empenha-se em relançar O Casulo. Lacerda conseguiu uma boa maneira de viver das palavras.