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Número 784,

Cultura

Cinema

O grande pontífice

por Luis S. Krausz — publicado 25/01/2014 10h15, última modificação 25/01/2014 12h26
Claudio Abbado uniu excelência musical e coerência ideológica
Reprodução
Claudio Abbado

Regente refinado, Abbado passa à posteridade como maestro à altura de Toscanini

Claudio Abbado foi um dos mais refinados regentes da atualidade e, como as poucas estrelas da rarefeita constelação à qual pertencia, notabilizou-se por interpretações do grande repertório sinfônico e operístico do século XIX. É esse repertório que lota salas de concerto e expressa a confiança de uma Europa humanista em sua superioridade cultural.

Grandes regentes criam pontes com esse espírito capaz de contagiar os ouvintes com a confiança que reinava em tempos menos sombrios. E Abbado foi, sem dúvida, um grande pontífice. Talvez suas interpretações de Gustav Mahler (1860-1911), último mestre do romantismo austro-alemão, cuja obra é carregada de premonições catastróficas, sejam aquelas que melhor expressem a consciência de que a música é uma ponte para outros âmbitos: os que jazem nas sepulturas do passado e os que se encontram além do alcance dos sentidos, na absoluta transcendência, esfera em que Mahler sempre pareceu sentir-se em casa. Dois outros destacados nomes da música austríaca, Mozart e Schubert, foram-lhe igualmente caros.

Abbado nasceu de família musical de Milão, de tradição antifascista. Durante a Segunda Guerra, esconderam em casa um menino judeu, salvo da deportação e da morte. Sua mãe, Maria, pianista, deu-lhe as primeiras aulas. O pai, Michelangelo, era professor de violino do conservatório Giuseppe Verdi, onde Abbado se formou em 1955, seguindo para Viena para aperfeiçoar-se com Hans Swarowsky.

Nos anos seguintes, tornou-se professor do Conservatório de Parma e ganhou notoriedade após reger a 2ª Sinfonia de Mahler à frente da Filarmônica de Viena, em 1965. Três anos depois, assumiu como titular do La Scala de Milão, cujo repertório ampliou ao introduzir  música do século XX: Schöenberg, Berg e Webern tornaram-se parte de seu repertório frequente. Ali, Abbado apresentou premières de obras de Luigi Nono, Krzysztof Penderecki e Pierre Boulez.

Consciencioso, introspectivo, devotado à excelência musical, enfrentou dificuldades políticas à frente da orquestra do La Scala que o levaram a se demitir na década de 1970. Lacônico, considerava supérfluo falar sobre música. Mas tomava posições ideológicas claras, a discordar do clichê de que “um músico não deve falar de política”. Chegou a organizar um concerto contra partidos de direita. Apesar de eventualmente criticar o PCI, apoiou-o abertamente.

Em 1990 partiu para seu maior desafio, o posto de diretor musical da Filarmônica de Berlim pós Karajan. Ficou no cargo até 2002. Laureado com títulos incontáveis, Abbado passa à posteridade como nome à altura de Toscanini e Furtwangler. Talvez não seja coincidência que sua morte ocorra no ano em que se comemora o centenário do início da Primeira Guerra e da destruição do universo ao qual pertenceram os compositores com os quais guardava afinidades.