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Número 784,

Economia

Política Econômica

Fatores de esperança

por Delfim Netto publicado 27/01/2014 05h55
O cenário atual indica que 2014 será melhor para o crescimento econômico do Brasil do que foi 2013

Há alguns fatores que permitem manter a esperança de termos um 2014 melhor do que foi 2013 para o desenvolvimento brasileiro. Dois desses fatores são externos e três de responsabilidade de nossa própria política econômica.

Fatores externos:

1. A retomada da atividade produtiva da economia americana, ainda a mais poderosa do mundo, que logrou estabilizar o índice de desemprego, “com viés de baixa”. Dá para acompanhar a expectativa da primeira mulher, Janet Yellen, que assumiu a presidência do Federal Reserve, “elegendo” a taxa de 3% de crescimento do PIB dos EUA em 2014. Ela defende, desde sempre, a retirada cautelosa do “afrouxamento monetário”, o que promete menos turbulência nos mercados. Não esconde, também, a ênfase na sustentação do crescimento, sem negligenciar o controle da inflação, evidentemente.

2. A recuperação, apesar de ainda lenta, que se generaliza nos países de porte médio e a expectativa de sustentação do crescimento acima de 7% do gigante chinês, a segunda maior economia mundial, cuja corrente de comércio parece programada para cortes muito modestos.

Fatores internos:

1. A disposição da presidenta Dilma Rousseff em ampliar o diálogo com o setor produtivo num esforço para reconstruir os níveis de confiança indispensáveis entre governo e empresários, que tem resultado no sucesso dos leilões de concessão da infraestrutura. O aumento dessa confiança será decisivo para o desenvolvimento econômico do Brasil em 2014.

2. Mesmo se tratando de um país relativamente fechado do ponto de vista da economia (nossas exportações representam apenas 13% do PIB e as importações 14%), as reações do comércio exterior influenciam as variações da taxa de crescimento do produto brasileiro. Existe uma correlação entre a conjuntura mundial e a nacional: temos mais facilidade para crescer quando aumenta o PIB mundial; as perspectivas mais favoráveis deste ano para as economias dos Estados Unidos e de parte da Europa, além da expectativa de sucesso do “Abenomics” japonês e de queda apenas moderada do comércio exterior chinês, poderão ajudar o crescimento do nosso PIB em 2014.

3. Em 2013, após cinco anos de supervalorização cambial, o “mercado”, de novo, começou a impor a correção do câmbio, o que sugere que a indústria de manufaturados poderá usar melhor, entre 12 e 18 meses, os fatores de que dispõe, ajudando na recuperação do crescimento econômico brasileiro. Entre 2008 e 2013, graças, principalmente, à excessiva valorização cambial (além da carga tributária e dos juros elevados), a política econômica suprimiu alguns bilhões de dólares de demanda externa e interna, retardando dramaticamente o desenvolvimento da indústria de manufaturados nacional.

O Brasil enfrentou dificuldades como os demais países na crise de 2008 e atravessou o seu auge comportando-se relativamente bem, pois continuou crescendo durante os anos de recessão mundial. Desde a Constituição de 1988 vem se empenhando em projetos de inclusão social como raramente em outras ocasiões de nossa história, conseguindo nos governos Lula e Dilma importante redução nos níveis da pobreza e corrigindo para melhor os índices de desigualdade pessoal e regional. Enfim, é um país que mudou de cara, tornou-se diferente no período.

Talvez tenhamos exagerado na política distributiva, sem perceber que esse modelo de crescimento é muito bom para responder ao consumo de hoje, mas se deixarmos de investir fortemente pensando no futuro, o modelo não se sustenta, porque não vai ter consumo amanhã. O crescimento da demanda exigia que simultaneamente chamássemos o setor privado e, com regras claras, permitíssemos às empresas maior participação no desenho das condições de retorno dos investimentos.
Hoje, com melhor conhecimento do regime dos leilões, está sendo possível acelerar os investimentos em rodovias, nos aeroportos, em energia – inclusive petróleo – e até mesmo recuperar o atraso no setor de ferrovias e portuário. Aumenta o investimento privado e traz de volta o investimento público que o Brasil deixou de fazer na infraestrutura nos últimos 30 anos.

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