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Número 784,

Internacional

Crise

A França e o caso dos cupons de alimentos

por Paul Krugman — publicado 29/01/2014 05h55, última modificação 29/01/2014 06h30
Nos dois temas, os fatos precisam vencer antes de mais nada as resistências ideológicas. Por Paul Krugman
Emilio del Prado/Flickr
Torre

Segundo Krugman, os números da economia francesa não são bons mas também não são dramáticos

"Não se deve crucificar a humanidade em um croissant de ouro.” Essa foi a resposta do economista Alan Taylor ao presidente francês, François Hollande, por ter adotado a Lei de Say. Hollande disse literalmente que “a oferta na verdade cria demanda” em uma entrevista coletiva, juntamente com sua mudança, mais uma vez em suas próprias palavras, para as políticas pelo lado da oferta.

O que é surpreendente para mim, além da infelicidade de Hollande, é o extremo pessimismo da elite francesa. Você poderia pensar que a França é uma área devastada. Mas os números, embora não sejam bons, não são tão dramáticos. A começar pelo crescimento desde a crise. Como a França se situa no contexto europeu? Não tão bem quanto a Alemanha, obviamente. Mas, se você a comparar com outros países europeus, ela não se destaca como um mau ator. E sobre o declínio da competitividade? É verdade que a França teve constantes déficits de conta corrente nos últimos anos, mas são bastante pequenos.

E a previsão fiscal da França não parece nada preocupante, exceto na medida em que ela cortou demais seu déficit estrutural diante da fraqueza econômica. Os mercados de títulos, que entraram em pânico durante o pior momento da crise do euro, não parecem muito preocupados hoje.

Mas o desempenho francês foi definitivamente fraco nos últimos trimestres. Por quê? O economista Francesco Saraceno afirma que o problema é a demanda, não a oferta. Os dados da inflação também sustentam essa opinião. Como grande parte da Europa, a França parece flertar com a deflação e corre grande risco de cair em um cenário semelhante ao do Japão.

A National Review publicou recentemente uma interessante reportagem sobre a situação da região dos Apalaches (Leste da América do Norte), oferecendo um valioso retrato dos problemas: um relato de como as pessoas negociam com os cupons de alimentação, trocando-os por pacotes de refrigerantes, que então trocam por dinheiro ou outras coisas. Mas o artigo também tem uma moral: o grande problema, afirma Williamson, é o modo como a ajuda do governo cria dependência. É a ideia de Paul Ryan da
rede de segurança como uma rede de dormir, que torna a vida muito fácil para os pobres.

Mas os fatos sobre os Apalaches realmente sustentam essa visão? Não. Na verdade, até os fatos apresentados no artigo não a sustentam. Williamson rejeita sugestões de que fatores econômicos poderiam conduzir o colapso social na região: “Se você for procurar a catástrofe que arrasou a área, descobrirá uma história aterrorizante: nada aconteceu”.

Ele quase imediatamente se contradiz, ao notar que o emprego no leste do Kentucky caiu com o declínio do carvão e da pequena manufatura. É verdade, não houve um momento súbito em que o principal empregador da área fechou, foi um processo gradual. Mas e então? A história subjacente dos Apalaches é, na verdade, de declínio das oportunidades.

É alguma surpresa que as pessoas tenham recorrido a cupons de alimentação? O que elas fariam se não tivessem os cupons?
Williamson é um repórter bom demais para afirmar que as pessoas poderiam encontrar empregos no leste do Kentucky se realmente quisessem trabalhar. Em vez disso, afirma implicitamente que a “caridade” promove a dependência ao permitir que as pessoas fiquem em seus municípios em vez de ir para outros lugares. Talvez. Mas, como ele também nota, muitas pessoas estão partindo. Então o risco moral não parece tão grave. Parece a história do que acontece quando certa região enfrenta uma perda drástica de oportunidades.

E sobre o refrigerante: coisas como essa acontecem quando você tenta oferecer ajuda em espécie para pessoas muito pobres. Dê a uma pessoa moderadamente pobre cupons de alimentação e ela provavelmente usará tudo em comida. Dê cupons de alimentação para uma pessoa muito pobre com nenhuma outra fonte de renda e ela tentará converter parte deles em dinheiro para gastar em outras coisas. Isso não quer dizer que recebe muita ajuda, apenas que está desesperada, e não apenas em termos de seu orçamento alimentar.

De volta à questão maior: minha visão da reportagem de Williamson é que ele basicamente diz que o sociólogo William Julius Wilson estava certo. Wilson afirmou que os problemas sociais dos negros urbanos não surgiram porque havia algo inerentemente errado com sua cultura, mas porque as oportunidades de empregos nos centros urbanos secaram.

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