Você está aqui: Página Inicial / Revista / Rio / Casa de ferreiro
Número 783,

Cultura

Cinema

Casa de ferreiro

por Orlando Margarido — publicado 18/01/2014 09h20
No cinema de Manoel de Oliveira temos sempre a impressão de sermos privados de algo. Em "O Gebo e a Sombra" o espectador também é negado dos detalhes esclarecedores da trama
Divulgação
O Gebo e a Sombra

Tom soturno. Jeanne Moreau, Michael Lonsdale e Luis M. Cintra, longa espera

O Gebo e a Sombra
Manoel de Oliveira

No cinema de Manoel de Oliveira temos sempre a impressão de sermos privados de algo. Mais do que talvez escapar a uma narrativa convencional e simplificadora, faz parte da concepção do mestre português contornar justificativas e fatos para nos fazer atentar a um certo imponderável na vida. Essa desconfiança ressalta-se em O Gebo e a Sombra, novo filme do realizador de 105 anos em cartaz a partir de sexta 17. Nele somos mantidos desde o início à parte do que ocorre claramente na sala simples onde conversa uma família à espera de um filho que se foi.

Se ao espectador são negados detalhes esclarecedores, a privação segue em outras vertentes mais definidas na trama. Falta dinheiro, por exemplo, avisa o patriarca e notário Gebo (o grande Michael Lonsdale), que ao lidar com números como cobrador carrega uma metáfora dessa ausência. Ao trabalhar sem interrupção para alimentar os seus, ele atesta outra privação, a de liberdade, aferroado que está ao ofício e àquela casa.

Ao dilema se liga o filho João (Ricardo Trêpa), que teria partido ao mar, sugere uma cena inicial no porto, emblema da vida livre. Por ele esperam com angústia a mulher (Leonor Silveira) e a mãe (Claudia Cardinale), de quem se poupa aos cochichos e comentários pouco dignificantes do rapaz, não se sabe se merecedor. A peça do português Raúl Brandão, escrita nos anos 1920 e adaptada por Manoel num tom soturno, no que tem de aparência trágica também tem de reveladora da diferença entre pontos de vista quando se trata de julgar o ser humano.  

registrado em: