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Número 783,

Internacional

Análise: Gianni Carta

A morte de um vilão

por Gianni Carta publicado 18/01/2014 09h18, última modificação 19/01/2014 04h58
Celebrado como herói, foi soldado feroz, governante impiedoso e responsável pela carnificina perpetrada por Israel no Líbano em 1982. Por Gianni Carta
Menahem Kahana / AFP
Sharon

Ariel Sharon faleceu aos 85 anos no dia 11 de janeiro

Biografias de protagonistas marcantes da história são escritas de diferentes ângulos. Há elogios, silêncios e ataques. A biografia do ex-premier israelense Ariel Sharon, falecido aos 85 anos no sábado 11 após oito anos em coma, começou a ser escrita já no seu funeral na segunda-feira 13. Oradores da classe política presentes à cerimônia permearam suas elocuções de elogios. O presidente israelense Shimon Peres lembrou “o amigo” Sharon como “uma viva lenda militar” a sonhar pela paz de Israel, enquanto seu conterrâneo, o premier Benjamin Netanyahu, observou: “Sua memória fará parte dessa nação para sempre”. Segundo o vice-presidente norte-americano Joe Biden, a “Estrela do Norte” de Sharon “era a sobrevivência de Israel e dos judeus, onde vivessem”.

Tzvi Endel, ex-representante das colônias judaicas na Faixa de Gaza, de onde todos os colonos israelenses foram retirados por Sharon em 2005, sentenciou: “Nunca serei capaz de perdoá-lo”.  Inconformado com a decisão de Sharon, o rabino Ovadia Yosef, então líder espiritual da legenda ultraortodoxa Shas, previu em uma entrevista em 2005: “Sharon vai morrer, dormir e não se levantará”. E acrescentou: “O que aqueles pobres colonos fizeram?” Em 4 de janeiro de 2006, o então premier teve um segundo derrame e mergulhou em um estado de coma.

Para Jibril Rajoub, do Fatah, a agremiação que domina a Cisjordânia, Sharon “era um criminoso de guerra” e deveria ter sido julgado como tal pela Corte Penal Internacional. Robert Fisk, repórter do diário britânico The Independent, escreveu que Sharon foi um “açougueiro”. Fisk cobriu a mais memorável de todas as carnificinas perpetradas pelo falecido, quando ministro da Defesa. Aconteceu em 1982. Sharon invadiu o Líbano com o objetivo de afugentar os palestinos da Organização para a Libertação da Palestina de Beirute para a Jordânia. Segundo Fisk, Sharon “enviou” uma milícia de falangistas cristãos para massacrar 17 mil palestinos nos campos de refugiados de Shatila e Sabra, na capital libanesa. Um inquérito israelense julgou o ministro responsável por não ter evitado o massacre e Sharon foi demitido.

Ariel Sheinerman, neto e filho de sionistas, nasceu entre as duas guerras no vale de Sharon, nas proximidades de Tel-Aviv, ainda sob mandato britânico. O pai georgiano Samuel era fazendeiro como a mãe, Devorah. Em 1948, na guerra da qual emergiria Israel, Sharon, aos 20 anos, integrava o Haganá, uma organização paramilitar sionista. Em sua fulgurante carreira militar, participou de todas as guerras até a de Yom Kippur em 1973, quando o “Leão de Deus” trocou a carreira militar pela política. Em 1977, tornou-se líder do Likud. Em seguida foi ministro da Agricultura e da Defesa. Após Shatila e Sabra, Sharon atravessou um período às margens da política.

Em setembro de 2000, deu o ar da graça no local sagrado em Jerusalém Oriental conhecido como Monte do Templo, pelos judeus, e Haram al-Sharif, pelos muçulmanos. A provocação gerou a segunda Intifada. Em 2001 Sharon foi eleito premier. A retirada dos colonos de Gaza foi pura tática. Sharon agiu movido por uma questão demográfica. Mais: pretendia focar na colonização da bíblica Cisjordânia. Ademais, era óbvio que haveria divisões entre as duas regiões da Palestina, uma controlada por uma legenda islamita fundamentalista e a outra por um governo laico. Dividir para conquistar. No sábado 11 foi enterrado como um herói.

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