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Número 782,

Política

Turquia

Quem é o inimigo de Erdogan?

por Gianni Carta publicado 11/01/2014 08h00, última modificação 11/01/2014 08h17
Seria o exilado Gulen? Ou Israel, em conluio com os EUA? Ou ele mesmo? Por Gianni Carta
Mohd Rasfan / AFP
Erdogan

Erdogan declara-se vítima de uma conspiração internacional, que seria encabeçada por Fethullah Gulen

Islâmico e pró-mercado, o governo do premier Recep Tayyip Erdogan era apontado por líderes ocidentais como o modelo a ser seguido pelos turbulentos regimes árabes. Não somente a economia do país ia de vento em popa (cresceu 4% em 2013), mas também muçulmanos praticantes, moderados e laicos pareciam conviver em perfeita harmonia. E apesar de consideráveis percalços, reinava nesse país, fascinante amálgama de Oriente e Ocidente, a expectativa de sua integração na União Europeia. Essa esperança começou a evanescer no verão do ano passado, quando eclodiram protestos contra a “islamização” constitucional do país. Foram reprimidos com inaudita brutalidade. No dia 17 de dezembro o quadro piorou quando a polícia prendeu dezenas de pessoas, inclusive três filhos de ministros por corrupção. Para ter uma ideia das somas envolvidas, na casa de um diretor do Halkbank havia 4,5 milhões de dólares guardados em caixas de sapatos.

À vista das próximas eleições municipais em março e presidenciais em agosto, Erdogan viu-se forçado a aceitar a demissão dos três ministros e mais o ministro das Relações Europeias, também ele envolvido no escândalo. Há 11 anos no poder, Erdogan, líder do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP única legenda a governar o país), quer transformar o regime parlamentarista em presidencialista para reunir todos os poderes. Estratégia certamente inspirada nas recentes manobras do tzar russo Vladimir Putin. De fato, em termos de autoritarismo e oratória populista, Erdogan, outrora um político pragmático e respeitado mundo afora, torna-se cada vez mais controverso.

Logo após ter feito as necessárias reformas no seu gabinete, Erdogan anunciou que o escândalo de corrupção atende a mais um complô internacional para tirá-lo do poder. Fethullah Gulen, clérigo islamita turco em exílio voluntário na Pensilvânia, seria o coordenador dessa operação juntamente com Israel e os Estados Unidos. Ironicamente, por anos a fio Erdogan, 60 anos, e Gulen, 72, foram aliados. Ambos acreditavam em dar um maior papel ao Islã na Turquia, cujas leis seculares foram adotadas desde a sua fundação em 1923 por Mustafa Kemal Ataturk. Os gulenistas foram cruciais nas três vitórias eleitorais de Erdogan. Igualmente importante foi o fato de os gulenistas, influentes no sistema judiciário e policial, terem colaborado com Erdogan para eliminar o poder dos militares, que garantiam o secularismo e foram responsáveis por pelo menos três golpes de Estado.

No entanto, Gulen, que escapou para os EUA quando, em 2000, foi condenado por trair o secularismo, parece não ter apreciado a brutalidade com a qual a forças de ordem de Erdogan lidaram com as manifestações do ano passado. Ou seria o fato de Erdogan ter mandado fechar as escolas da sinistra confraria global de Gulen na Turquia, a Hizmet (“Serviço”)? Embora seculares, as escolas desaprovam fumo, álcool e divórcio.

De qualquer modo, Gulen parece se contradizer. Antes de se exilar nos EUA, o clérigo não queria dar maior voz aos islamitas em um contexto secular? Gulen dizia aos seus seguidores para infiltrarem a polícia e o sistema judiciário com o objetivo de emendar a Constituição. Não surpreende, portanto, que Erdogan esteja empenhado na demissão de policiais e magistrados, todos, diz, gulenistas infiltrados e sequiosos por derrubá-lo do poder. Até o fim desta semana, mais de 700 policiais haviam sido demitidos e substituídos por partidários de Erdogan. A sorte de magistrados não parecia diferente. Assim, as investigações não chegaram a Bilal, o filho de Erdogan acusado de envolvimento de especulação no setor imobiliário.

Gulen provavelmente não seria contrário às “reformas” realizadas por Erdogan e que engatilharam os protestos de 2013: álcool não pode ser vendido entre 10 da noite e 6 da manhã, casais deveriam ter no mínimo três filhos, mas o ideal seriam cinco. Nesse contexto, a pílula do aborto foi banida. Em suma, tanto Erdogan quanto Gulen parecem ter discursos semelhantes. A diferença é que Erdogan foi preso em 1998 após ter lido um poema a incitar islâmicos radicais. Em 2002, quando o AKP venceu a primeira eleição geral, tudo levava a crer que Erdogan havia se tornado mais pragmático. Por sua vez, já instalado na Pensilvânia, Gulen foi absolvido in absentia na Turquia.

Hizmet é um movimento, não uma legenda, cujos integrantes têm carteirinha. Seus seguidores, como os de dúbias seitas evangélicas brasileiras, oferecem entre 5% e 20% de suas rendas ao movimento. O programa dessa espécie de seita parece convincente para israelenses e norte-americanos, especialmente se inquietados por um premier islamita: um Islã tolerante, mais altruísmo, trabalho e educação. O pragmático, agora, parece ser Gulen. Mas será que ele só quer o poder de Erdogan? Gulen teria fotos de líderes próximos a Erdogan envolvidos em casos extramaritais...

Israel, ligado ou não a Gulen, certamente esfrega as mãos ao ver a briga entre o clérigo e o premier. Uma recente contenda entre Tel-Aviv e Ancara remonta a 2010, quando nove turcos no navio Mavi Marmara, parte da “Flotilha da Liberdade” de duas ONGs que transportava 10 mil toneladas de ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, foram mortos em águas internacionais pela Marinha israelense. Após intensa pressão de Washington, o premier, Benjamin Netanyahu finalmente pediu desculpas. No momento, Erdogan pede para os israelenses arrefecerem o bloqueio de Gaza e culpa Israel pelo golpe de Estado no Egito que derrubou Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Uma reconciliação entre a Turquia e Israel às vésperas de eleições não seria um ato positivo para a popularidade de Erdogan. E uma consequente animosidade com os EUA de Barack Obama também não faz mal para Erdogan, ainda o candidato mais forte para vencer as próximas presidenciais.

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