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Número 780,

Cultura

Cinema

Império ocasional

por Orlando Margarido — publicado 21/12/2013 09h28
Paolo Sorrentino reflete sobre as contradições de sua Itália
Divulgação
A Grande Beleza

Gambardella (Toni Servillo), retrato das ocasiões perdidas

A Grande Beleza
Paolo Sorrentino

Mais do que um filme sobre ilusões perdidas, A Grande Beleza, estreia da sexta 20, é um retrato das ocasiões perdidas. A definição é de Toni Servillo, protagonista e peça efetiva para este novo trabalho de Paolo Sorrentino ser um painel desolador e contundente da Itália atual. Se não é toda uma nação representada, temos por certo uma fatia dela, com orgulho de sê-la, encastelada num ambiente com resquícios de glamour. A Roma que foi a grande meretriz para Fellini, com Sorrentino degenera para a tolice e bizarrice.

Em meio a tudo, passeia Jep Gambardella, o personagem de Servillo, entre cínico e conformado. Escritor de um único e bem-sucedido livro, ele agora se dedica ao jornalismo de celebridades com algum verniz sofisticado. É um diletante, porque com a fortuna amealhada pode se dar a luxos como promover grandes festas no apartamento em frente do Coliseu, frequentar bares e restaurantes da moda, consolar-se com boas roupas e mulheres bonitas. Um bon vivant, em parte decalcado na boemia do jornalista de Marcello Mastroianni em A Doce Vida. A aproximação é inevitável, embora negada por Sorrentino, que coloca na conta da influência de qualquer realizador de sua geração o diálogo com os mestres do cinema italiano.

Se não há a pobreza material, como se identifica na roda frequentada por Gambardella, há outras. A moral, espiritual e intelectual são mais sérias, refletiram Sorrentino e seu ator em Cannes. O diretor põe o dedo na ferida de seu país em ao menos duas cenas. Numa, o escritor desmonta o frágil equilíbrio de vida de uma de suas convidadas, reduzindo-a a uma farsa. Em outra, visita um dos monumentos que atentam a grandeza artística romana para se perguntar para onde esta seguiu.

O ciclo fecha-se com a tomada de abertura sob a estátua de Garibaldi e o lema inscrito, Roma ou Morte. Há a contradição todo o tempo em Gambardella e no que o cerca. Em Sorrentino também, que teve de responder em Cannes ao fato de ter realizado o filme sob a chancela da Medusa, braço cinematográfico de Silvio Berlusconi, e sob patrocínio de um banco. Mas não é preciso conhecer bastidores para constatar o painel desolador oferecido à reflexão.

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