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Número 779,

Economia

Preços

No bolso dos pobres

por Luiz Antonio Cintra — publicado 31/12/2013 00h32
Desde 2008, o custo da cesta básica sobe acima da inflação oficial
Flickr / Fotos GOVBA
Cesta básica

Nos últimos 12 meses, a alta acumulada da cesta básica é negativa em apenas duas capitais

O planalto escolheu o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, para anunciar em cadeia nacional de rádio e tevê o fim da cobrança dos impostos federais nos produtos da cesta básica. Foram desonerados alimentos e bens de higiene pessoal, itens como arroz, feijão, leite, farinha de trigo, carne, banana, tomate, pão francês, pasta de dente e sabonete. A expectativa anunciada àquela altura por Dilma Rousseff era de que os preços caíssem entre 9% e 12,5%, na mesma proporção das alíquotas extintas. “Conto com os empresários para que isso signifique uma redução dos preços”, disse a presidenta.

Oito meses depois, as estatísticas mais recentes demonstram que o Planalto fez a aposta errada. E que será preciso encontrar um plano B para reverter a tendência de alta dos produtos básicos, que após um alívio temporário, ligado principalmente às flutuações internacionais, voltaram ao movimento verificado desde o fim de 2007, subindo acima da média dos preços, captada pelo IPCA.

Nos últimos 12 meses, segundo o Dieese, a alta acumulada da cesta básica é negativa em apenas duas capitais pesquisadas, Florianópolis e Goiânia, onde os preços caíram muito menos do que o esperado pelo governo, com recuos de 0,58% e 0,27%, respectivamente. Nas outras 16 cidades pesquisadas, o movimento foi de elevação, em alguns casos com aumentos no ano de dois dígitos. Em Salvador, a maior alta registrada, a cesta subiu 13%, segundo levantamento divulgado na quarta-feira 11, seguida por Rio de Janeiro (11,02%), Natal (10,95%) e Porto Alegre (10,36%). As menores variações positivas no período, segundo o Dieese, deram-se em Brasília e Fortaleza, ambas com variações de 2,96%.

“O andamento dos preços da cesta básica indica que o efeito da desoneração foi nulo”, diz o economista Paulo Picchetti, pesquisador do Ibre-FGV. “Com as vendas crescendo em um ritmo mais lento e a alta do dólar, os varejistas, principalmente os supermercados, aproveitaram a desoneração para recompor as margens de lucro.” No caso dos alimentos, diz o especialista, consolidou-se uma mudança de preços relativos, na comparação com os produtos manufaturados, tendência que dificilmente será invertida a curto prazo.

Segundo o especialista, o governo errou o alvo ao optar pelo corte dos impostos, que somou 5,3 bilhões de reais, entre janeiro e outubro, de um total de 62 bilhões de reais a menos em arrecadação, fruto dos alívios tributários concedidos a diversos setores com o objetivo de acelerar o crescimento econômico sem gerar mais inflação. Melhor seria, avalia Picchetti, ter atacado o lado da oferta, que não tem crescido no ritmo necessário para fazer frente à demanda aquecida. “As desonerações dão um alívio momentâneo, funcionam apenas pontualmente e por um determinado período. Mas não são capazes de mudar a tendência, inclusive porque a demanda tende a aumentar em um primeiro momento, o que volta a pressionar os preços.”
Em uma perspectiva mais ampla, a comparação da evolução da cesta básica com a média dos preços, captada pelo IPCA, indica

uma inflexão a partir do último trimestre de 2007 e início de 2008, portanto ainda antes do estouro da crise internacional após a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. “A opção do governo para sair da crise foi acelerar a geração de empregos e aumentar a oferta de crédito, por meio dos bancos públicos, o que resultou em um crescimento expressivo da demanda. Por isso essa inflação não deixa de ser positiva para o desenvolvimento”, diz Alberto Borges Matias, professor da FEA-USP de Ribeirão Preto.

Assim como
Picchetti, Matias considera que, para reverter essa tendência, não faz sentido a opção pela alta da Selic, atual-
mente em 10% ao ano, após seis altas consecutivas. “É muito mais relevante melhorar as condições para o financiamento agrícola, de modo a garantir a expansão da oferta”, diz Matias, exatamente o contrário do que o BC tem feito. Além disso, alguns itens enfrentam problemas específicos. Na cadeia produtiva do leite, houve, por exemplo, a quebra de várias cooperativas relevantes. A farinha de trigo sofre os reflexos das oscilações do dólar e do mercado internacional.

Na pesquisa mais recente do Dieese, outro movimento dos preços chamou a atenção. Com a alta do custo da cesta básica, um trabalhador que ganha salário mínimo teria de trabalhar em novembro 93 horas e 17 minutos para adquirir o conjunto de produtos, uma hora além do necessário em outubro.

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