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Número 779,

Cultura

Cinema

Fronteira tênue

por Orlando Margarido — publicado 14/12/2013 09h46, última modificação 14/12/2013 10h17
Em "A Jaula de Ouro" três guatemaltecos decidem atravessar a fronteira americana. A opção dá autenticidade e um rigor brutal às cenas, nem sempre atenuadas
Divulgação
A Jaula de Ouro

A longa jornada de atrocidades rumo aos EUA

A Jaula de Ouro
Diego Quemada-Díez

A vida pode ser ainda pior do que sugere A Jaula de Ouro, em cartaz, pois entre fatos e a sugestão de outros se contrapõe um cinema de documento ao que é impensável. A horas tantas migrantes que viajam clandestinos em trens de carga no México são sequestrados por uma quadrilha. Dos que dizem ter família nos Estados Unidos se exige um número de telefone. Pode-se presumir a chantagem por vir. Mas o diretor Diego Quemada-Díez não prossegue. Quando esteve na recente 37ª Mostra, que lhe premiou com menção honrosa, o realizador espanhol alegou que ir além suscitaria descrença, tamanha a atrocidade envolvida em tais golpes.

O espectador por certo encontrará outras na trajetória dos três meninos guatemaltecos que decidem atravessar a fronteira americana. É um trio incomum, também pela idade. De início, há o mais valente deles, Juan (Brandon López), e a garota Sara (Karen Martínez), que sabedora dos riscos a mais traveste-se de rapaz. Aos dois se junta, não sem algum choque, o índio Chauk (Rodolfo Domínguez). Como os adolescentes, o elenco de apoio é não profissional.

São personagens dispostos ao risco para emigrar. A opção dá autenticidade e um rigor brutal às cenas, nem sempre atenuadas. Nesse formato se insere a experiência de Quemada-Díez como assistente do britânico Ken Loach, homem do documentário político, e de Fernando Meirelles em O Paciente Inglês. O eco de Cidade de Deus, claro, se renova nos jovens transformados em atores que, como no sucesso brasileiro, brilharam com prêmios. No caso, um troféu coletivo na seção paralela Um Certo Olhar do Festival de Cannes, num raro momento de beleza relacionado ao filme.

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