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Número 779,

Cultura

Cinema

Forçosa mudança

por Orlando Margarido — publicado 14/12/2013 09h45, última modificação 14/12/2013 10h14
Se há uma aparente nova China a se impor a outra antiga e tradicional, há também um novo cinema de Jia Zhang-ke, com "Um Toque de Pecado"
Divulgação
Um Toque de Pecado

Meng Li, dia de fúria numa China brutalizada

Um Toque de Pecado
Jia Zhang-ke

Se há uma aparente nova China a se impor a outra antiga e tradicional, há também um novo cinema de Jia Zhang-ke. É o que parece sugerir Um Toque de Pecado, estreia da sexta 13, com seu aparato de violência brutal a que não estamos acostumados em seus filmes. Mas este realizador dos mais apurados do cenário atual não faz senão se moldar a uma realidade mutante, e para pior a seu ver. “Os fatos exigiam outra abordagem”, justificou a CartaCapital durante o Festival de Cannes, do qual saiu com o prêmio de melhor roteiro. “O que fiz foi me adaptar ao horror que via e lia a respeito, não poderia ficar mais atrelado a retratos humanos.”

Esse horror, de outra maneira, sempre existiu em seus relatos do país que se moderniza à custa da desvalorização da vida humana. Para usar da metáfora, Zhang-ke pega em armas, mas o personagem que abre o filme o faz literalmente no primeiro dos quatro episódios. No limite de nunca ser ouvido pelas autoridades do pequeno povoado, o trabalhador sai de rifle na mão
e faz o acerto de contas a seu modo. Na cena mais emblemática, acerta o algoz que açoita o cavalo e liberta o animal.

Na mesma toada frenética, e em certo sentido libertária, seguirão um matador, pai de família, uma jovem recepcionista de um bordel com seu dia de revolta e um rapaz atordoado com o acidente de um colega de trabalho. A conectá-los, uma China tanto urbana como rural acossada pelo preço da modernidade e do progresso, perturbadora como esta síntese cinematográfica.   

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