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Número 779,

Sociedade

Cariocas

Campos de batalha

por Carlos Leonam — publicado 15/12/2013 07h38, última modificação 15/12/2013 09h10
Memória dos tempos em que a rivalidade das torcidas não desandava em ódio e brutalidade. Por Carlos Leonam
Heuler Andrey / AFP
Futebol

Organizadas? Não é legislação que falta, o que falta é a aplicação da lei

Este torcedor e escriba é do tempo em que o pai dele levava o filho para assistir a um jogo de futebol sem medo de apanhar. Sou do tempo em que cada time tinha apenas uma torcida organizada e não facções de marginais que brigam com as do inimigo, quer dizer, com a do adversário. Ou entre si.

Nos anos 50 e 60, a torcida do Flamengo, com sua animada charanga, era comandada por Jaime de Carvalho; a do Botafogo tinha como líder o Tarzan; a do Fluminense era liderada pelo Paulista. Não passava pela cabeça de ninguém sair na porrada com torcedores do outro clube com quem iam jogar.

Em 1951, o jornalista Mário Filho (será que o novo Maracanã continuará tendo o nome dele?) criou uma promoção – o Fla-Flu das Torcidas. A mais inventiva, no turno e no returno do Campeonato Carioca, era premiada pelo Jornal dos Sports.

Havia rivalidade, mas uma rivalidade bem-humorada: os rubro-negros receberam o time tricolor com uma chuva de talco, como se fosse pó de arroz, para gozar o adversário; os tricolores (que haviam sabido da gozação) fizeram adentrar o gramado uma imensa caixa de pó de arroz Coty, de onde, bem no centro do gramado, saiu uma bailarina.

Muitos anos depois, em 1976, quando a Fiel corintiana ocupou o Maraca contra o Fluminense, tirando os cariocas da disputa do título brasileiro, não houve uma só briga nas arquibancadas. E eram 30 mil corintianos fanáticos, o maior deslocamento de uma torcida na história do futebol.

Antigamente era assim. Até que vieram as quadrilhas organizadas, que, por todo o Brasil, não torcem, transformam as arquibancadas em campos de batalha, como ocorreu agora, no jogo entre o Atlético Paranaense e o Vasco, em Joinville.

Conversando, esta semana, com o escritor Ivan Sant’Anna, ele também indignado com o que se viu em Santa Catarina, chegamos à mesma conclusão:  o que aconteceu no domingo em Joinville não foi culpa da legislação brasileira, cujo Estatuto do Torcedor e leis ordinárias já punem esse tipo de desordeiros. A culpa foi da não aplicação da lei em casos anteriores, diversos deles neste Campeonato Brasileiro que terminou no domingo.

Deixo a palavra final com Ivan:
“Desta vez a punição dessa ralé tem de ser um exemplo para sempre. Atlético Paranaense e Vasco deveriam cair para a Terceira Divisão (subiriam cinco da série B para a série A, para não parecer casuísmo em favor do Fluminense), deveriam disputar todos os seus jogos como mandantes de 2014 com estádios vazios. E os torcedores que se envolveram no conflito, cujas fotos estão disponíveis, serem presos, banidos dos estádios para sempre. Se a gente der com uma barra de ferro na cabeça de alguém, seremos processados por tentativa de homicídio. Se fizermos a mesma coisa num estádio de futebol e por acaso acabarmos presos, seremos proibidos de ir aos jogos de nosso clube”. Isso, na teoria, acrescento eu.

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