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Número 779,

Política

Análise / Delfim Netto

Às voltas com a tempestade

por Delfim Netto publicado 18/12/2013 06h23
É preciso antecipar-se e convencer a sociedade brasileira de que o governo está atento aos sinais de mudança e não será surpreendido no primeiro semestre de 2014

Para a economia mundial 2013 foi um ano muito difícil. Mais um no encadeamento de crises desde que há cinco anos aflorou a grande falcatrua no mercado financeiro americano. O Brasil conseguiu pular fora do olho do furacão em 2008 e 2009, com o PIB a crescer em meio à confusão (acima de 4%) nos primeiros dois anos críticos. A partir daí, contudo, não reencontrou um ritmo satisfatório de crescimento. Menos mal do que no resto do mundo, onde a maioria das nações, principalmente as desenvolvidas, teve uma queda radical dos níveis de crescimento, com períodos de recessão dos quais ainda não se afastaram.

O fato é que ninguém se recuperou das complicações causadas na vida de seus povos, em razão do baixo crescimento. Vinda de um longo e invejável período de expansão do PIB anual, acima de 8%, a China ouviu neste fim de ano a advertência de seu líder, Xi Jinping, a preparar o clima para “um ambiente nada otimista na economia em 2014”, em razão da expectativa de “crescimento modesto”, de 7%. Trocando em miúdos, como a situação mundial continua complicada, os chineses têm se preparado para cortar a produção industrial (e eventualmente empregos), por causa “da demanda menor por seus produtos de exportação”.

A situação da economia brasileira é desconfortável, mas menos delicada que a da economia mundial. As complicações são um pouco maiores do que pensava o governo, embora muito menores do que supõem os seus críticos, especialmente os ansiosos “analistas” dos mercados financeiros, nativos ou alienígenas, em suas avaliações extremamente pessimistas. Houve mudanças importantes na política do governo da presidenta Dilma Rousseff, permitindo renovar as esperanças que tenhamos em 2014, a superação das dificuldades nos campos fiscal e monetário.

Simplificando, vamos encerrar 2013 com o PIB em um ritmo de crescimento de 2,3% ou pouco mais, com uma taxa de inflação muito parecida com 6% e um déficit de 80 bilhões de dólares em conta corrente. Não são resultados confortáveis, mas nada a indicar necessariamente que vamos encontrar na virada do ano os “cavaleiros do Apocalipse”. Fazer previsões de crescimento menor que 2% do PIB, em 2014, é simples aventura de quem prefere ignorar os aspectos positivos que se mostram na economia brasileira e mesmo na economia mundial, independentemente do universo asiático. É possível destacar:

Primeiro, o tratamento mais amigável do governo ao setor privado, que é quem produz o desenvolvimento, mudança retratada nos êxitos recentes obtidos nos leilões de concessões para as obras de infraestrutura. Segundo, sinais de que a economia mundial vai melhorar um pouquinho. Sabemos ser tênue a relação entre o crescimento do mundo e o desenvolvimento do Brasil, mas essa relação existe. Caso isso aconteça, como espero, deverá adicionar alguma coisa ao nosso crescimento. Em terceiro lugar, tem acontecido uma recuperação do câmbio: a resposta da indústria vai demorar ainda uns 12 meses, talvez um pouco mais, mas seguramente vai acontecer.

A ideia de que o crescimento do PIB em 2014 será menor que o de 2013 tem por fundamento a crença da inexistência do governo e de que não haverá reação às condições oferecidas. Os Estados Unidos poderão reduzir os estímulos monetários, acreditando na recuperação mais rápida do crescimento e do nível do emprego, o que representará um risco para o Brasil se o governo não tomar providências enérgicas para restabelecer a confiabilidade da sua política fiscal.

Tudo isso, porém, é mera especulação porque o nível do crescimento no ano que vem não está dado: o PIB não está escrito na pedra ou nas estrelas. O comportamento da economia não está definido, nem dos Estados Unidos, nem do Brasil. Minha expectativa é de que podemos recuperar mais rapidamente um nível satisfatório de crescimento na medida em que o governo tome as providências para observar melhor as exigências das políticas fiscal e monetária, preparando-se para a eventualidade de mudanças nos EUA.

É preciso antecipar-se e convencer a sociedade brasileira de que o governo está atento aos sinais de mudança, para não ser surpreendido pela tal “tempestade perfeita” no primeiro semestre de 2014.