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Número 777,

Cultura

Protagonista

O cronista da Bahia

por Ana Ferraz publicado 04/12/2013 06h22, última modificação 04/12/2013 11h22
Fenômeno do samba, Riachão recupera parte de seu acervo. Por Ana Ferraz
Marcos Méndez
Riachão

"Mundão de Ouro" traz dez músicas inéditas. Em "Humanenochum", pérolas como Baleia da Sé

No fim da década de 1950, uma baleia parou Salvador. O bichão embalsamado foi colocado numa carreta para exibição pública. A iniciativa partiu de empresários norte-americanos, que cobravam ingresso para ver Moby Dick. Acompanhado de dois amigos, Clementino Rodrigues preparava-se para um gole de cachaça, quando atentou para o movimento. Feito o “perguntado”, veio o estranhamento. “Baleia aqui na Praça da Sé, se o mar está lá embaixo?” Sem querer gastar o sagrado dinheiro reservado à branquinha, foi falar com o policial que controlava a entrada. “Meu grande amigo, muito boa tarde. Não leve a mal não, somos da imprensa e queríamos permissão para ver a baleia. ‘Oh, pois não’, disse, e liberou a passagem. Quando comecei a olhar para aquela baleia enorme, Jesus mandou a música.”

Clementino Rodrigues é Riachão, lenda viva do samba baiano, menino buliçoso hospedado no corpo de um homem de 92 anos que transborda vivacidade e fé na vida. “Sou feliz da hora que acordo, como está no samba minha vida é alegria,/ à tristeza não dou bola,/ se surgir algum problema,/ com o samba resolvo na hora, diz, ou melhor, canta. A memória de Riachão é musical. A quase tudo responde cantando. É assim com o caso da baleia. Ele recorda com clareza o episódio ocorrido em 1959 e de seus arquivos mentais saca a canção completa (Baleia da Sé), tremendo sucesso que fascinou especialmente as crianças, deslumbradas com o gigante marinho e embaladas pelo refrão: Eu vi o caminhão da baleia/ eu vi o cabeção da baleia/ eu vi o barrigão da baleia/eu vi o umbigão da baleia/ só não vi uma coisa – diz! – da baleia.

Depois do drible de mestre no segurança foi a vez de dar volta no gringo. “Eu ali, pequeninho, perto do americano alto. Toquei nele e disse, ‘ó, samba em homenagem à baleia’. Ele falava um pouco de brasileiro e ficou encantado, queria gravar. Pedi 5 mil-réis, era um bom dinheiro. Comprei quatro acetatos, três ficaram com ele, que usou a música para fazer publicidade.”

A gravação foi feita por um amigo da Rádio Sociedade da Bahia, onde Riachão se apresentou durante as décadas de 1930 e 1940, sempre com repertório próprio. Foi ali que desapareceram muitas de suas músicas. “Teve um incêndio na rádio e tudo o que eu havia copiado estava num rolo que virou pó. Quem dera eu pudesse lembrar todas elas”, lamenta. O compositor e intérprete contabiliza 500 composições, uma avalanche de criatividade que começou a se manifestar aos 14 anos.

“Eu ia passando no bairro da Misericórdia para comprar material para a alfaiataria Spinelli, onde comecei a trabalhar aos 12 anos, quando vi no chão um pedaço de revista. Não tive escola, como digo no samba (Menino de Rua), mas Jesus fez eu ler. Estava escrito ‘se o Rio não escrever, a Bahia não canta’. Fiquei com aquilo no juízo. Contando parece mentira. Na manhã seguinte Jesus mandou minha primeira música (eu sei que sou malandro sei,/ conheço o meu proceder,/ deixa o dia raiar,/ a nossa turma é boa, é boa somente para batucar). A partir dessa nunca mais faltou música. Vem tudo junto no pensamento e aí faço força pra ficar na mente.”

Riachão se define como um malandro da velha-guarda. Para honrar a categoria, apresenta-se de terno e sapatos brancos, anéis coloridos, correntes e pulseiras, lencinho no bolso do paletó a combinar com a camisa e o chapéu. No pescoço, uma onipresente toalhinha, resquício dos tempos de capoeirista, arte praticada pelo pai, também “sambador e carroceiro”. “A malandragem é uma coisa, a vagabundagem é outra”, esclarece. “Malandro trabalha, vive cantando pra levar alegria, só coisa boa. O vagabundo, como se sabe, é traiçoeiro e aí por diante.”

Alegre, farrista, orgulha-se de sempre ter tido parceiro para tudo, “pra música e pra velório”. Em seu currículo, que incluiu mais de 20 anos como contínuo do Banco de Desenvolvimento da Bahia, onde cantava enquanto distribuía documentos, consta a função de sentinela. “Quem não queria passar a noite no velório me chamava. A gente ficava do lado do morto, tomando cachaça e conversando, inventando histórias. Ia pra casa de manhã e voltava à tarde para o enterro.” Os parentes do finado se encarregavam de comprar vários litros da branquinha. “Bebo desde os 9 anos. Não tenho o que falar da cachaça, nunca passei mal. Parei faz seis anos, mas sinto falta.”

Clementino virou Riachão por obra e graça dele mesmo. “Minha família é de Santo Amaro da Purificação e naquele tempo a palavra riachão era para os homens que brigavam muito.” Nascido no Bairro do Garcia, reduto do samba de rua, onde vive até hoje, mantém interação simbiótica com o ritmo que venera e associa à suprema divindade: “O samba é Deus, é alegria. Nasci com o samba no pé, no duro da cebola.”

Para ele não existe controvérsia: o samba nasceu na Bahia e deve ser tratado com mais cuidado e carinho. “Agora está melhor, a turma está sambando mais, mas ainda falta um pouquinho de amor. Hoje o samba é diferente, o acompanhamento é outro. O jovem não tem o mesmo sentimento, mas cada macaco no seu galho”, diz e remete a um de seus grandes sucessos, Chô Chuá, que ganhou popularidade na voz de Gilberto Gil e Caetano Veloso no disco Expresso 2222.

Conforme consta da cartilha, malandro que é malandro tem o lado romântico aflorado. “Se não fosse Deus e a mulher eu não estava aqui, por isso dou valor e sempre enalteço a mulher.” Paquerador, certa vez Riachão deixou os amigos falando sozinhos para acompanhar com solenidade a malemolência de uma baianinha que cruzou seu caminho. “Estava com os malandros, cada um contando suas histórias. De repente vi uma gatinha que vinha da Praça Municipal. Quando ela foi passando eu disse ‘peraí, não fale comigo agora’. Eles tomaram um susto. Fiquei olhando. Depois que ela sumiu voltei pra conversa. E aí Jesus mandou o samba.”
As duas grandes paixões de Riachão foram Lalinha, com quem teve oito filhos, e Dalvinha, quatro. Para homenagear as mulheres de forma geral criou a organização Humanenochum (nome de seu segundo CD, lançado em 2001), uma das muitas palavras brotadas de seu imaginário fecundo. Ao se perguntar o que quer dizer, faz mistério. “É uma brincadeira masculinástica.”

Com uma produção
caudalosa, é de estranhar que o artista tenha apenas dois CDs gravados (o primeiro é Sonho de Malandro, de 1981). Esse jejum acaba de ser quebrado. Graças à iniciativa e ao empenho da cantora e produtora baiana Vânia Abreu, Riachão lança Mundão de Ouro. Num trabalho amoroso e paciente, o sobrinho do músico, Jacson Paim, acompanhou-o três vezes à produtora Comando S Discos, em São Paulo. O método de “extração” consistiu em colocar Riachão no estúdio e puxar conversa. À medida que os assuntos surgiam, as músicas brotavam. “O grande projeto é registrar a obra. Quando chegou aqui, ele tinha 33 músicas editadas, chegamos a 71. É um acervo que estava na cabeça dele e será registrado”, diz o produtor Serginho Rezende.

Mundão de Ouro traz dez canções inéditas, mais Chô Chuá e Vá Morar com o Diabo, contagiante samba jocoso que ganhou versão de Cássia Eller em 2001 (Acústico MTV). Esta é justamente a música que o autor menos gosta. “Jamais mandaria mulher nenhuma para o Diabo.” Como em quase todas as suas composições, surgiu de conversa com um amigo, danado da vida com a preguiça da mulher. Depois de enumerar tudo o que ela não faz, resolve a questão mandando-a “morar com o sete pele”.

O novo disco é um deleite caprichosamente concebido. Os arranjos de Cássio Calazans recuperam o que Vânia descreve como “a sonoridade das ruas da Bahia”.  Ao ouvir Mundão de Ouro pela primeira vez, o sambista recorreu diversas vezes à toalhinha de pescoço para enxugar as lágrimas. “Estou felicíssimo com o trabalho desses meninos. Me sinto abençoado.”

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