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Número 777,

Cultura

Cinema

Ecologia do horror

por Orlando Margarido — publicado 01/12/2013 09h21, última modificação 01/12/2013 09h53
Com "Mar Negro", Rodrigo Aragão se firma como destaque do cinema de terror trash brasileiro. No seu segundo longa, um território de zumbis e um tom bem humorado
Divulgação
Mar Negro

Orçamento anoréxico, humor em altas doses

Se o genuíno terror brasileiro adotou o trash como saída possível ao baixo orçamento, o capixaba Rodrigo Aragão pode envaidecer-se de ter aberto um caminho vicinal. Com Mar Negro, segundo longa depois de Mangue Negro, e curtas de mesmo universo, ele não contorna de todo os preceitos de um mestre como Zé do Caixão, mas os adapta ao território de suas raízes. Assim, o mar do Espírito Santo será um território justificado para a disseminação de zumbis quando a má prática humana de poluí-lo gera as condições para tanto. Mas, antes de se atrelar a uma mensagem, Aragão trabalha o inevitável tom bem-humorado desse subgênero e faz refletir sobre as possibilidades da imaginação ante o bolso apertado.

A julgar pela exibição fincada nas areias de São Miguel do Gostoso, na primeira edição da mostra de cinema terminada na terça 26, a proposta cumpre-se também pela vertente da surpresa. Dois pescadores em alto-mar recolhem uma estranha criatura que os ataca e contamina um deles. De volta à comunidade, a proliferação torna-se inevitável, afetando de uma família dependente do peixe ao novo prostíbulo local. Às referências conhecidas somam-se ainda a magia negra e a violência destemperada, mais associada ao cinema americano de Quentin Tarantino, por exemplo.

A elaboração está sempre presente, porém, e dá conta de uma ambição maior do realizador, como aquela de construir tipos consagrados, como o pescador burro, mas valente, o jovem rejeitado pelo vilarejo por suas
características diferentes, o bebum do botequim, a criança que representa o olhar futuro, e assim por diante. Dessa forma, de uma variante possível, o cinema de Aragão mostra-se também preceito criativo.

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