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Número 777,

Internacional

Irã

Acordo provisório, uma esperança

por Gianni Carta publicado 30/11/2013 09h57, última modificação 30/11/2013 10h46
Teerã aceita negociar com a comunidade internacional. Objetivo: uma resolução de paz
Fabrice Coffrini / AFP
Zarif e Kerry

Zarif e Kerry selam o acordo em Genebra. O chanceler iraniano manteve o sorriso ao chegar em Teerã

O aperto de mão entre o secretário de Estado John Kerry e o chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no domingo 24, em Genebra, selou o acordo provisório entre a comunidade internacional e o Irã. Em troca de um limitado alívio de sanções econômicas, Teerã aceitou negociar nos próximos seis meses com os cinco integrantes do Conselho de Segurança – Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China – e mais a Alemanha. Barack Obama, fala em “acordo histórico”. Por sua vez, Zarif, eterno sorriso nos lábios, foi recebido como herói em Teerã. O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, abençoou o acordo ao qualificá-lo como um “sucesso”. Desde a Revolução Islâmica de 1979, Teerã e Washington não assinavam um documento tão significativo. O objetivo das próximas rodadas é chegar a uma resolução permanente de paz.

No seu segundo mandato, Obama finalmente conseguiu uma vitória no Oriente Médio. Escassos meses atrás em entrevista a CartaCapital, Vali Nasr, ex-conselheiro de Obama no Departamento de Estado, havia dito: “Obama não tem uma estratégia para o Oriente Médio”. Nasr teve agora de revisar sua interpretação de Obama. Em entrevista ao diário francês Libération argumentou: “É muito cedo para falarmos de uma parceria com o Irã, mas uma relação com Teerã poderia significar um desengajamento (dos EUA) da região”.

Por sua vez, o presidente iraniano Hassan Rohani, como seu chanceler Zarif, atingiu um alto nível de popularidade em apenas cinco meses de seu mandato. Fundamental é que ele chegue até o final do processo, isto é, a uma resolução de paz. A opinião pública iraniana, incluída aquela que emigrou em massa para a Europa e os Estados Unidos após a Revolução de 1979, está cansada de ser criticada pelos ocidentais. Embora não seja um moderado como gosta de se apresentar, e sim um aliado de Khamenei, o homem que distribui as cartas no Irã, Rohani, de 64 nos, tem demonstrado boas intenções em levar adiante o processo de paz. Segundo o cientista político iraniano Hesam Houryaband, “o aspecto mais positivo do acordo foi o fato de o presidente ter concordado em aceitar inspeções nucleares cotidianas de instalações por parte da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)”. O cientista político lembra que o governo anterior de Mahmoud Ahmadinejad chamava os inspetores de “espiões”.

Houryaband também avalia como positiva, entre outras concessões por parte de Teerã no acordo, a redução do estoque de urânio enriquecido abaixo de 5%. Ao mesmo tempo, o Irã comprometeu-se a não ultrapassar o enriquecimento de urânio acima do mesmo porcentual. É claro, questões mais delicadas serão discutidas em futuras rodadas. Como disse John Kerry, o importante era dar início às negociações com um acordo interino para ganhar tempo. Por exemplo, um dos obstáculos nas primeiras duas rodadas, antes da assinatura do acordo provisório na terceira, era o “direito inalienável” do Irã de enriquecer urânio para fins pacíficos. Zarif não abriu mão desse direito.  

Em troca do acordo, por um período de seis meses não haverá novas sanções relacionadas ao programa nuclear. O alívio ao Irã é avaliado em 7 bilhões de dólares.  Cerca de 4 bilhões do total correspondem à receita congelada de petróleo vendido. No entanto, a “mais importante realização do Irã foi ter usado seu programa nuclear como uma poderosa arma diplomática”, diz Zvi Bar’el do diário israelense Haaretz. “Seis poderosos países, e por tabela a maioria das nações, agora reconhece o Irã como um país com direitos”, acrescenta Bar’el. Mais: a opção militar está “em fase de evaporação”. De fato, quem atacaria o Irã em um momento em que as negociações estão sendo levadas adiante?

No momento, o premier israelense não parece cogitar de um ataque. Mas disse: “Aquilo que foi concluído em Genebra não foi um acordo histórico, mas um erro histórico”. E acrescentou: “O regime iraniano está engajado na destruição de Israel e Israel tem o direito e a obrigação de se defender contra qualquer ameaça”. O chanceler israelense, Avigdor Lieberman, disparou: “O acordo de Genebra foi a maior vitória diplomática do Irã desde a Revolução Islâmica e resultará em uma corrida por novas armas”. Lieberman poderia ter razão. Mas quem daria o primeiro passo?

Furiosa com o fato de Washington não ter bombardeado Damasco, a Arábia Saudita, que juntamente com outras repúblicas do Golfo Pérsico, arma a oposição fundamentalista sunita na guerra civil contra o alauíta Assad, pensa em obter a bomba atômica do Paquistão. Apesar de sua falta de ética, a Arábia Saudita é um dos principais parceiros de Washington. Em Israel, o professor Efraim Inbar, diretor do Begin-Sadat Center for Strategic Studies, diz que “um ataque contra a infraestrutura (do Irã) tem seus riscos, mas pode ser realizada”.  A determinação de Israel, emenda Inbar, “poderia levar o país a um grande sucesso operacional e político”. E a resposta da chamada comunidade internacional? “Seria suportável”, retruca. O perigo de novas sanções econômicas contra o Irã por parte do Congresso dos EUA engatilharia uma reação por parte dos linhas-duras no Irã. “Isso seria contraproducente”, avalia Houryaband.

Teria sido mais producente levar adiante o acordo de 2010 entre o Brasil, a Turquia e o Irã. O plano arquitetado por Luis Inácio Lula da Silva e o premier turco Recep Erdogan previa enriquecer urânio na Turquia. Aquilo que voltaria ao Irã seria usado para fins pacíficos, já que não poderia ser usado para produzir a bomba. Apenas um dia após o anúncio do acordo, os EUA impuseram novas sanções contra o Irã.

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