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Número 776,

Cultura

Fotografia

Frente a frente

por Rosane Pavam publicado 23/11/2013 08h18
Raymond Depardon encara seus personagens e elogia o banal
Reprodução
Fotografia

O medo é necessário. Arma sobre a mesa, o combatente pede a foto na Beirute de 1978

Raymond Depardon fotografa como no século XIX, de frente para seu personagem, em modo análogo ao adotado diante do presidente François Hollande, cujo retrato oficial é seu. Verdade que Depardon prefere estar oculto de seu objeto enquanto fotografa. Mas, uma vez movido à relação direta, espera que o modelo aja sem grande tensão. Em entrevista a CartaCapital, o francês de 71 anos, cuja retrospectiva de cinco décadas de carreira se deu há pouco em Paris e cuja seleção de 18 imagens está publicada no número 5 da revista Zum (IMS), diz-se um fotógrafo banal.

E por banalidade ele entende sua exterioridade ao acontecimento. “Minhas fotos não representam fatos excepcionais, furos”, crê. “Tenho o olhar nem mais nem menos atuante, desprovido, espero, de qualquer dominação ou julgamento de minha cultura ou de minhas origens. E é claro que a infância está sempre lá, com minha curiosidade.” Ele viveu em fazenda com os pais e o irmão, de quem logo pegou emprestada uma Lumière, antes que pudesse chegar à Rolleiflex. Aos 16 anos fotografou Edith Piaf para o estúdio de Louis Foucherand.

Ainda tem laboratório próprio para revelar seus filmes, e precisa deles. “Não sou contrário ao digital. Mas, nas altas luzes, como no deserto africano, sua precisão me perturba. Eu gosto do medo de errar uma foto.” Depardon está sempre mais longe. Naquela Beirute de 1978, ouviu a trava de segurança da arma do combatente saltar, ameaçadora, até que o homem simplesmente o obrigasse a fotografá-lo. Suas imagens sobre a queda do Muro de Berlim, em 1989, foram essenciais ao século. “Não trabalho muito com Paris, uma cidade tão fotogênica”. Do Brasil, onde esteve em 2008 para registrar os ianomâmis, mal viu o Rio.

Prefere a literatura à pintura e também faz filmes, pela duração e pelas palavras. “Para mim, o cinema é uma captação mais simples do real, sem que o movimento tenha prioridade.” Não cita Cartier-Bresson entre suas influências, mas os americanos Walker Evans e Paul Strand. “Sou muito sensível à street photography dos EUA, que me salvou da reportagem tradicional por seu radicalismo.”

Carrega a câmera para onde vá. “Fazer fotografia é uma droga. Eu tento canalizar esse desejo no prazer ou esse prazer no desejo.

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