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Número 775,

Internacional

Irã

Um pra lá, dois pra cá

por Gianni Carta publicado 15/11/2013 06h41, última modificação 16/11/2013 03h36
Os Estados Unidos não sabem o que fazer com o acordo nuclear e a França tem seus próprios planos. Por Gianni Carta
Borna Ghasemi / AFP
Rohani

Desde 2003, o hoje presidente Rohani buscava uma solução

As negociações sobre o programa nuclear iraniano não serão um passeio no parque. Quarta-feira 20, sempre em Genebra, elas serão retomadas, mas desta feita com representantes diplomáticos de menor calibre do Irã e do P5+1 (os cinco integrantes permanentes do Conselho de Segurança da ONU – França, Estados Unidos, Reino Unido, China e Rússia – mais a Alemanha).

Isso, é claro, sugere a expectativa de inúmeros convescotes inconclusivos. Enquanto isso, o Congresso dos EUA, o governo israelense e o da Arábia Saudita, ironicamente unidos nessa empreitada, e uma caterva de outros opositores ao acordo entre os dois campos terão tempo para apresentar novos argumentos, quiçá mais certeiros, contra a “inconfiável” Teerã.

A primeira rodada em Genebra – que chegou a ser pintada por vários líderes da chamada comunidade internacional e pelos veículos mais ingênuos da mídia como uma etapa definitiva – fracassou no domingo 10.  Isso porque o ministro do Exterior da França, Laurent Fabius, recusou-se a assinar a proposta inicial. Motivo? Um reator iraniano de água pesada, em Arak, produz plutônio suscetível de ser utilizado para fabricar a bomba atômica. Ademais, o chanceler francês exige garantias em relação à capacidade de enriquecimento de urânio, atualmente de 20%, porcentual demasiado elevado, já que pode rapidamente chegar a 90% – neste caso, suficiente para uso militar.

Ao cabo de três dias de intensas negociações, ficou transparente o seguinte: a comunidade internacional representada pelo P5+1 não compartilha a mesma percepção sobre as intenções nucleares do Irã. No início, tudo parecia correr dentro dos trilhos. No sábado 9, o sorridente chanceler britânico, William Hague, assegurava a eminente assinatura de um acordo. Mohammad Javad Zarif, o chanceler do novo presidente iraniano, Hassan Rohani, tinha motivos para festejar. Nunca, desde a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o regime do xá Reza Pahlevi, o diálogo entre os países ocidentais e o Irã parecia ter sido tão decisivo.
Após a inesperada intervenção de Fabius, teve início o costumeiro balé diplomático. Da chefe da diplomacia da União Europeia, Catherine Ashton, ouvimos: “Houve progresso concreto, mas algumas diferenças permanecem”. O secretário norte-americano de Estado, John Kerry, a princípio, não se manifestou. Zarif minimizou a ausência de acordo.  E concordou com Ashton: “Houve progresso”.

No entanto, flechadas de todos os lados revelaram que o minueto diplomático, mesmo no mais alto patamar, tem seus limites. De saída, o Líder Supremo, Ali Khamenei, o homem que realmente distribui as cartas no Irã, disparou em inglês de sua conta no Twitter: “Funcionários franceses têm sido abertamente hostis ao Irã nos últimos anos”. A conta no Facebook do chanceler Fabius foi inundada por frases como esta: “O muro da embaixada da França em Teerã tem quantos metros?”

Em visita a Abu Dabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, John Kerry finalmente se pronunciou. Quando Fabius impôs revisões do acordo, disse Kerry, Washington concordou com o chanceler francês. A história não parece ser bem essa, caso contrário Kerry teria se pronunciado já em Genebra. Incumbido por Barack Obama de consertar os fiascos no Oriente Médio, uma primeira etapa bem-sucedida em Genebra seria, pelo menos por ora, uma rara vitória para os Estados Unidos na conturbada geopolítica da região.

Sem estratégia clara, Kerry acabou por mudar seu discurso ao sabor dos acontecimentos. Em Abu Dabi, disse que o maior obstáculo em Genebra foi o fato de Zarif ter insistido sobre o “direito” do Irã de enriquecer urânio. Acrescentou Kerry: “O grupo dos P5+1 estava unido quando apresentamos nossa proposta aos iranianos... mas o governo iraniano não podia aceitá-la naquele momento em particular”.  Zarif revidou. Kerry passou a distorcer aquilo que realmente ocorreu: a França é que se opôs ao acordo.

O acordo de cooperação entre o Irã e a Agência Nuclear da ONU, firmado na segunda-feira 11, é o atestado de boas intenções exibido por Zarif. O chanceler voltou a insistir que os fins do programa nuclear do país são pacíficos. Segundo o cientista político iraniano Hesam Houryaband, o processo de enriquecimento de urânio é considerado no Irã, por todos, como um “direito inalienável”.

Houryaband acredita que Rohani queira concluir um acordo sobre o dossiê nuclear, e isso é uma reminiscência de seu mandato, sob a presidência de Mohammad Khatami (1997-2005), como chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, instituição incumbida de preservar a Revolução Islâmica e a integridade e soberania iranianas. Nessa função, Rohani supervisionou as negociações nucleares com a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha, entre 2003 e 2005. O então chanceler britânico Jack Straw lembrou que o atual presidente do Irã “estava claramente ansioso para trazer uma solução ao longo conflito” entre seu país e o Ocidente.

A reaproximação, particularmente com Washington, teve início em junho, quando Rohani foi eleito presidente. Considerado um moderado, venceu graças, em grande parte, ao apoio de reformistas como o ex-presidente Khatami e a promessas como garantir maiores direitos civis e a libertação de presos políticos, inclusive aqueles da Revolução Verde de 2009. “Essa foi uma vitória da moderação contra o extremismo”, disse, no discurso de vitória. Ao contrário de seu antecessor extremista Mahmoud Ahmadinejad, que queria “tirar Israel do mapa”, Rohani tem falado em “transparência” e “diálogo”.

Efetivamente, Rohani e Obama tiveram uma conversa telefônica histórica, a primeira entre líderes dos dois países desde 1979. Em viagem a Nova York, em setembro, Rohani conquistou simpatias ao dizer: “Trouxe paz e amizade dos iranianos aos norte-americanos”. Embora não duvide das intenções de Rohani de negociar o programa nuclear iraniano, Houryaband diz que o presidente não tem nada de moderado. “É um conservador moderado. Aliás, não é difícil ser tido como moderado após a radicalização do país sob Ahmadinejad”.

Em relação à questão nuclear, Rohani teria recebido carta branca de Khamenei porque o Líder Supremo confia nele. Ao contrário de Ahmadinejad, Rohani, de 64 anos, e Khamenei, de 74, são velhos amigos. Juntos depuseram o xá.

Por que, então, o Líder Supremo estaria hoje disposto a negociar com os EUA? O Irã quer lidar com questões internas, diz Houryaband. E o Oriente Médio atravessa mudanças. O futuro é imprevisível. Bashar al-Assad, apoiado pelo Irã através do partido libanês xiita Hezbollah, sobreviverá? Caso não fique no posto, a política expansionista do Irã, que depende da Síria, estará em xeque. O objetivo de ter primazia sobre o mundo muçulmano – nutrido pelo líder da Revolução Islâmica de 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini – dificilmente se concretizaria. E, é claro, Khamenei quer hoje, em troca do acordo, um arrefecimento das sanções econômicas contra o Irã.

Do outro lado, o chanceler Laurent Fabius percebe que é importante para a França reforçar sua influência política no Golfo Pérsico. E, por tabela, estreitar os elos comerciais com a região. Em outubro, a Arábia Saudita adquiriu seis fragatas francesas por 1 bilhão de euros. Em julho, os Emirados Árabes Unidos também pagaram 1 bilhão de euros por um sistema de defesa antiaéreo francês. E o Catar, onipresente na França, estaria interessado na compra de caças Rafale – aqueles mesmos que o Brasil esteve perto de comprar.

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