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Número 775,

Internacional

Energia

O bagaço da terra

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 27/12/2013 23h59, última modificação 28/12/2013 02h20
O gás de xisto permite aos Estados Unidos reduzir as importações de petróleo, mas pode ser um desastre. Por Antonio Luiz M. C. Costa
Karen Bleier / Arquivo / AFP
Petróleo Estados Unidos

Plataforma de petróleo perto da cidade de Tioga, no Estado da Dakota do Norte. A produção de petróleo dos Estados Unidos vai bater seu próprio recorde em 2016

A produção de gás e petróleo de xisto pelo fracking, ou fratura hidráulica, foi recebida nos Estados Unidos, na Argentina e em alguns países europeus e asiáticos como uma panaceia contra o esgotamento das reservas de petróleo, a dependência das importações de energia e até o efeito estufa. Para muitos ambientalistas, porém, é uma catástrofe ecológica, o encerramento mais desastroso que se poderia imaginar para a era dos combustíveis fósseis. Talvez seja também uma ilusão, uma bolha especulativa destinada a estourar.

Trata-se de uma técnica para aproveitar gás ou petróleo de camadas de xisto, rocha impermeável à produção convencional.

Perfura-se um poço que na parte final é horizontal e por ele se injeta um fluido que amplia as fraturas do substrato rochoso para abrir caminho aos hidrocarbonetos nele encerrados. Usa-se geralmente uma mistura de água, areia e produtos químicos, trazida por caminhões-cisternas. A função dos grãos de areia é manter as rachaduras abertas e a dos aditivos inclui aumentar a viscosidade do líquido para transportar esses grãos com mais eficiência, reduzir a fricção e prevenir a corrosão e a multiplicação de bactérias. É como espremer o bagaço de um planeta que já deu suco.

O processo foi inventado em 1947 e usado comercialmente pela primeira vez em 1949, mas na maioria dos casos o procedimento só é lucrativo quando o petróleo está acima dos 70 dólares por barril. Foi no início do século XXI que a alta sustentada do preço do petróleo e a disponibilidade de redes de gasodutos estimularam seu uso nos Estados Unidos, onde saltou de 1% para 29% da produção. As importações, depois de terem atingido quase 14 milhões de barris/dia em 2006, declinaram para 10 milhões em meados de 2013. Segundo projeções da Agência Internacional de Energia, em 2014 o país superará a Rússia na produção de hidrocarbonetos e em 2020 ultrapassará a Arábia Saudita e retomará o primeiro lugar perdido em 1971, quando sua produção começou a declinar. Isso não faria dos EUA um exportador líquido, dado o consumo imenso, mas reduziria sua importação, que ficaria restrita ao Canadá e México. A América do Norte em conjunto poderá exportar petróleo por volta de 2030.

Em setembro de 2013, a China, desde 2009 a maior compradora do petróleo do Golfo Pérsico, provavelmente ultrapassou os EUA como maior importador líquido do mundo. Hoje, o envolvimento de Washington no Oriente Médio garante menos o seu próprio abastecimento do que o de Pequim – e, é claro, o dos aliados europeus e asiáticos dos EUA. Ao mesmo tempo, os defensores do fracking dizem ter contribuído para reduzir o efeito estufa, ao permitir a substituição de algumas termoelétricas a carvão por outras a gás, que emitem menos dióxido de carbono por megawatt-hora.

Desse ponto de vista, a exploração do gás de xisto parece um sucesso. Mas a que preço? Do ponto de vista ambiental, não sai de graça. Cada poço suporta, em média, 18 extrações, cada uma das quais requer de 4 mil a 30 mil metros cúbicos de água. É uma quantidade muito significativa, quando multiplicada pelo meio milhão de poços abertos nos EUA. Em áreas de reservas de água superexploradas, principalmente onde a mudança climática se combina com consumo excessivo, essa pode ser a gota que esvazia o copo. No Texas, 15 milhões vivem sob racionamento e 30 comunidades ficarão totalmente sem água até o fim de 2013, devido ao bombeamento de poços para abastecer a indústria petroleira. Fazendas de gado desapareceram, pomares morreram por falta de água para irrigá-los.

Mesmo onde a água não escasseia, ela pode ser contaminada. Os poços são normalmente revestidos de aço e cimento para evitar vazamentos, mas mesmo assim o subsolo é em muitos casos contaminado pelo gás e pelos aditivos. Isso torna a água inutilizável e inviabiliza a agropecuária na superfície. Além de liberar metano, um poderoso gás de efeito estufa. Em Dimock, na Pensilvânia, a água da torneira, impregnada de metano, pegava fogo, um poço de água explodiu e vários moradores tiveram problemas de saúde. Uma dessas famílias fez com a empresa responsável, a Range Resources, um acordo judicial pelo qual recebeu uma indenização de 750 mil dólares, mas foi proibida de falar sobre exploração de xisto pelo resto da vida, inclusive os filhos do casal, de 9 e 7 anos de idade.

Durante algum tempo, as famílias afetadas foram abastecidas por uma das empresas com água engarrafada, mas, no fim de 2011, o fornecimento foi interrompido e a Agência de Proteção Ambiental foi chamada a intervir. Constatou a contaminação da água da região com arsênico e impôs uma moratória na atividade do estado. O cinema abordou o problema no documentário Gasland, de Josh Fox (2010), e no drama Terra Prometida (Promised Land), de Gus Van Sant (2012).

Outra possível consequência negativa da exploração são os tremores de terra. Na Inglaterra, um tremor de 2,3 graus na escala Richter, produzido por um poço exploratório, levou a outra moratória no uso da técnica em 2011. No Canadá, ocorreu um tremor de 3,8 graus pelo mesmo motivo, no mesmo ano. São tremores relativamente pequenos, mas em grau um pouco superior poderiam produzir sérios danos em regiões onde as construções não previram risco sísmico.

Se isso é problema para áreas rurais de baixa densidade demográfica, pode ser muito pior onde a população é mais densa e a água e as terras agrícolas, mais escassas. Nova York, Ohio, Quebec (Canadá), Nova Gales do Sul (Austrália) e África do Sul proibiram temporariamente o fracking, assim como a França, a Bulgária e governos locais da Irlanda, Holanda, Espanha e Alemanha. A pressão em favor do processo é, porém, muito forte em países com reservas significativas e produção de gás e petróleo convencionais em declínio. Nos EUA e na Europa, os ambientalistas que o combatem são acusados de trabalhar para Vladimir Putin, crítico interessado dos riscos do método cujo uso tende a reduzir o preço do gás e a demanda europeia e chinesa pelas exportações da estatal russa Gazprom.

Na Argentina, dona da segunda maior reserva de gás de xisto do mundo (depois da China), 67 vezes maior que o que resta de gás convencional, o fracking promete recuperar a produção em queda da reestatizada YPF e restaurar a autossuficiência nacional em hidrocarbonetos, vital para um país com déficit crônico de divisas. Ali, manifestantes e governos locais contrários são tidos pelos governistas como aliados da direita. Essa discussão ainda mal começou no Brasil, que tem a décima maior reserva do gênero (17 vezes maior que a de gás convencional) e, apesar da prioridade ao pré-sal, da falta de uma rede de gasodutos e do risco de contaminação, serão leiloadas no fim de novembro concessões de gás de xisto nas bacias do Paraná, Parecis, Parnaíba, Recôncavo, Acre e São Francisco.

Outra questão: por quanto tempo a festa vai durar? A experiência é curta, mas, no início de 2012, geólogos começaram a alertar que a confiabilidade e a durabilidade das jazidas ficam aquém do esperado. O rendimento dos poços cai de 60% a 90% após um ano de exploração, enquanto a produção convencional cai 50% em dois anos e pode ser bombeada por mais de 20 anos. Além disso, os novos poços tendem a ser menos produtivos que os primeiros. Em oposição às previsões do setor, a Global Sustainability estimou que os EUA terão de perfurar 6 mil poços anuais, a um custo de 35 bilhões de dólares, para manter a produção, que mesmo assim atingirá o teto em 2017 e cairá rapidamente. Nesse caso, o fracking será uma ilusão dispendiosa, adiará investimentos indispensáveis em energia sustentável e deixará atrás de si apenas uma terra arrasada, no sentido tanto financeiro quanto literal.

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