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Número 774,

Cultura

História

Um rifle no visor

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 26/12/2013 18h34
No centenário de nascimento de Robert Capa, dois livros analisam a luta arriscada e apaixonada do fotógrafo contra a torpeza da guerra
Flickr / Curiosos de la Fotografía
Robert Capa

"As fotos nascem da imaginação dos editores e do público" dizia o fotógrafo

Depois de ler Ligeiramente Fora de Foco (1947), a autobiografia de Robert Capa, o jornalista John Hersey julgou o seu autor tão irreal quanto um personagem de ficção. “Capa, considerado o responsável pelas fotos mais importantes da Segunda Guerra Mundial, não existe”, escreveu Hersey. O fotojornalista era uma segunda e mais poderosa identidade criada por André Friedmann, judeu pobre nascido na Hungria, em 22 de outubro de 1913. Alex Kershaw adota uma perspectiva semelhante à de Hersey em Sangue e Champanhe (Record), biografia não autorizada a partir de entrevistas com amigos de Capa, além de pesquisas nos arquivos americanos e soviéticos. “Friedmann gostava de atuar como Capa, talvez a sua maior criação”, diz Kershaw a CartaCapital. “Enquanto fugia da perseguição antissemita na Europa, ele inventou um personagem para angariar renda e sucesso.”

Em 1935, aconselhado pela sua namorada, Gerda Taro, alemã judia, Friedmann fundou com ela uma agência de três ­pessoas em Paris. Taro seria a secretária e Friedmann, o laboratorista. Ambos negociariam as imagens de Robert Capa, um fotógrafo veterano dos Estados Unidos, a um preço três vezes acima da tabela. O mercado logo soube que Capa era o pseudônimo de André Friedmann, então um profissional inexperiente. A descoberta não manchou a reputação de Capa. Pouco tempo depois, ele ganhou notoriedade com o seu trabalho na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

O casal decidiu cobrir junto o conflito. Taro morreria em 1937 atropelada por um tanque. Segundo o fotógrafo e amigo Henri Cartier-Bresson, Capa nunca se recuperou da perda. Ele teria se tornado mais cínico e niilista. A relação entre ele e Taro é o tema do romance de Susana Fortes, Esperando Robert Capa (Record). Michael Mann, diretor de Inimigos Públicos (2009) e produtor de Witness (2012), uma série da HBO sobre fotógrafos de guerra contemporâneos, comprou os direitos cinematográficos da ficção, traduzida para mais de 20 línguas.

Fortes inspirou a sua obra em uma foto de Taro dormindo com o pijama de Capa e reproduzida na capa da edição brasileira do livro. A imagem pertence à Mexican Suitcase, o apelido de três caixas de papelão com 126 filmes fotográficos usados por Capa, Taro e David “Chim” Seymour durante a Guerra Civil Espanhola. Os rolos vieram a público somente em 2007 e o seu conteúdo transformou-se em uma exposição três anos depois no International Center of Photography, museu fundado em Nova York por Cornell Capa, irmão de Robert.

Em 1935, ao se conhecerem em Paris, os dois exilados judeus mantinham o nome de batismo. Taro chamava-se Gerta Pohorylle, três anos mais velha. “Não era mulher disposta a ceder um palmo, seja no amor, seja na guerra”, diz Fortes a ­CartaCapital. “Capa, sedutor e um tanto pretensioso, aprendeu a vestir-se e apresentar-se melhor com ela, a quem ­chamava de chefe.” Quando recuperava a sua Leica, penhorada várias vezes, Capa mostrava a Taro as regras básicas da fotografia.

Os desentendimentos entre o casal intensificaram-se em território espanhol. “Enquanto se arriscavam na linha de frente com as tropas republicanas, eles iniciaram uma rivalidade profissional.” As fotos de Taro eram publicadas sob a assinatura de Capa. “A guerra é um território masculino, mas Taro reivindicou o seu espaço.” Como necessitava de independência autoral, ela passou a se expor mais ao perigo. No dia de sua morte, estava em uma zona do conflito cujo acesso era proibido a jornalistas.

Na Espanha, Capa “pretendia tirar fotos que obrigassem todos a ver o que havia para combater”, de acordo com Martha Gellhorn, correspondente de guerra e sua confidente. As imagens continham mais do que um valor documental. Eram comentários sociais pautados pelas convicções esquerdistas e antifascistas de Capa. Deviam ser divulgadas em ensaios fotográficos. A noção de que o autor da fotografia é livre para trabalhar em nome dos seus princípios fez nascer a Magnum. Capa fundou a agência em 1947 com Cartier-Bresson, Chim e George Rodger para que os fotógrafos, não os periódicos, detivessem os direitos autorais do próprio trabalho.

Capa viveu na Guerra Civil Espanhola a primeira das suas cinco experiências bélicas. Juntou-se aos republicanos contra Francisco Franco, e em Córdoba tirou A Morte do Soldado Legalista (1936). “Essa imagem assinala a essência do conflito: o aniquilamento de uma pessoa”, diz Kershaw. “E mostra o quão perto Capa esteve das áreas conflagradas, o quanto se importava com as consequências dos confrontos.” Capa tinha um mote para o seu trabalho: “Se as fotos não são boas o suficiente, o fotógrafo não esteve perto o suficiente”.

A Morte do Soldado Legalista é alvo de controvérsia desde os anos 1970. Sangue e Champanhe, de 2002, não contém questionamentos recentes sobre a sua autenticidade. José Manuel Susperregui afirmou em Sombras de la Fotografía (2009) que a imagem foi encenada durante um treinamento militar em outra cidade, a 50 quilômetros de distância. Kotaro Sawaki, um dos jornalistas mais respeitados do Japão, atribuiu a Taro a autoria da foto. Segundo um livro de Sawaki deste ano, o combatente com o rifle aparece em queda por ter escorregado e não levado um tiro fatal. “Embora seja complicado ter certeza, essa foto provavelmente não é verdadeira”, acredita Kershaw. “Ela registra o idealismo de Capa.”

Em 22 de outubro deste ano, o International Center of Photography divulgou uma gravação da voz de Capa, até então disponível num disco de vinil à venda no eBay. Na entrevista de 1947 para a rádio NBC, o fotógrafo menciona A Morte do Soldado Legalista e explica a sua gênese. Esse é o único registro de um comentário de Capa sobre a imagem. Na trincheira com cerca de 20 soldados republicanos, em meio a um tiroteio, ele esticou os braços, elevou a câmera sobre a cabeça e começou a capturar uma sequência de cenas da ação. “Eu nunca vi a imagem no visor”, confessou o fotojornalista. Três meses depois, ele descobriu que A Morte do Soldado Legalista o tornara famoso. “As fotos nascem da imaginação dos editores e do público que as observa”, alertou na entrevista.

O escritor John Steinbeck acreditava que Capa, seu amigo, “havia provado que a câmera não precisava ser um instrumento mecânico frio. A exemplo da caneta, ela é tão boa quanto o homem que a usa. Pode ser a extensão da mente e do coração”, escreveu o ficcionista em Popular Photography (1954). Steinbeck viajou com o fotógrafo pela União Soviética em 1947, um dos poucos americanos a fazê-lo desde a Revolução Bolchevique. Relatou a experiência em Um Diário Russo (CosacNaify), livro de 1948 ilustrado com imagens de Capa.

Em 6 de junho de 1944, no Dia D, Capa registrou o sangrento desembarque dos soldados aliados na França, o feito mais importante da sua carreira, segundo Kershaw. Dos quatro filmes fotográficos em 35 milímetros usados por ele durante a ação, apenas um resistiu a um erro no processo de secagem. Foram oito as poses salvas, entre 106. Mas as imagens borradas pelo calor excessivo em laboratório foram legendadas como se as mãos de Capa estivessem trêmulas no momento do registro. Dez anos depois, em 1954, enquanto cobria a Guerra da Indochina, o fotojornalista morreu quando pisou em uma mina terrestre. O trabalho de Capa, afirma o biógrafo, comunica uma mensagem pacifista. “As suas fotos servem como um testemunho a mais da capacidade de o ser humano ser torpe e da necessidade de questionar o recurso da guerra.”

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