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Número 773,

Cultura

Cinema

Um baú de personagens

por Orlando Margarido — publicado 17/11/2013 08h35
O processo de criação do ator Irandhir Santos, expoente de sua geração
Jonas Tucci
Irandhir Santos

Irandhir Santos, o "louco oficial" que não quer o papel de bom moço

O baú quase não fecha. Nele, o ator pernambucano Irandhir Santos deposita em forma de cadernos a memória constitutiva de seus personagens ao longo de dez anos. Desenha, escreve, recorta e cola o que acredita ser o ideal para a atuação requerida. O método peculiar parece ser o motor para uma das carreiras mais exitosas da geração de intérpretes surgida com maior evidência no cinema. Aos 35 anos, Irandhir tirou dos rascunhos tipos como o defensor dos direitos humanos em Tropa de Elite 2 e um cínico segurança de rua em O Som ao Redor. Acaba de adicionar à valiosa coleção Clécio Wanderley, líder de uma trupe teatral dos anos 1970 em Tatuagem, que estreia dia 15. Finalizou as filmagens de O Circo de Santo Amaro, de Chico Teixeira, no papel de um professor envolvido com um aluno adolescente, enquanto ainda consulta o oráculo para as gravações da minissérie Amores Roubados.

Com essa adaptação do romance derivado da lenda urbana A Emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela, Santos chega ao 25º caderno e retorna ao formato televisivo que, em maior medida, o revelou. Em 2007, estreou na TV Globo com o mítico Quaderna de Ariano Suassuna em A Pedra do Reino, projeto levado ao cinema. Sob a direção de Luiz Fernando Carvalho, sinalizou uma característica singular e rara, ainda hoje evidente, na predileção de se ligar a artistas e obras nordestinos. Escritores como Suassuna e Vilela, profissionais e grupos de teatro, cineastas como Kleber Mendonça Filho e Cláudio Assis não surgem ao acaso em sua trajetória. “Prefiro sempre estar mais próximo das minhas raízes.”

Bem verdade, ele assume, que seu tipo físico e personalidade estão distantes do consagrado padrão televisivo para heróis e mocinhos. Um alívio, pois ser o bom moço é muito chato, ressalva. A tevê viria mais pelo desafio de saber se o tempo de criação e maturação de um personagem funcionaria no fabrico da teledramaturgia. “Tive a mesma dúvida quando surgiram os convites para o cinema, e consegui me adaptar.”

Sobre esse estranhamento ao cinema, Santos o contrapõe à formação inicial no teatro, reveladora também das raízes que procura manter. Nascido em Barreiros, cedo se mudou com a família para Limoeiro, agreste pernambucano. Entre idas ao cine-teatro para filmes dos Trapalhões e as primeiras tentativas de montagens amadoras na escola, um tio paterno o ensinava a desenhar, influência determinante para a descoberta artística. “Era o artista plástico e o louco oficial da cidade.” Nesse mesmo período prestará atenção ao universo de Suassuna, dando início a um frequente jogo de reflexos entre vida e representação.

O lance mais recente diz respeito a Tatuagem. O filme de estreia do também roteirista recifense Hilton Lacerda se inspira na experiência do Grupo de Teatro Vivencial, histórico na cena da Olinda dos anos 70 e 80. Relembra, pela ficção, a atitude provocadora desse núcleo fundado por Guilherme Coelho que absorveu autores e diretores como Jomard Muniz de Britto e Hermilo Borba Filho. Temas como a homossexualidade e as drogas ressurgem com irreverência no cotidiano da trupe comandada pelo Clécio de Santos, pano de fundo para o triângulo amoroso entre este, a travesti Paulete (Rodrigo Garcia) e o jovem soldado Fininha (Jesuíta Barbosa).

O ator não testemunhou o Vivencial, mas deparou com a influente herança nos estudos quando chegou ao Recife nos anos 1990 para finalizar sua formação. Integrou-se às montagens de André Cavendish, ligado à Companhia Seraphim, e optou por artes cênicas na Universidade Federal. O cinema o inspirava apenas como espectador da sala da Fundação Joaquim Nabuco, comandada ainda hoje por Kleber Mendonça Filho. Ali conheceria os curtas-metragens de Cláudio Assis, de quem se tornaria ator em Baixio das Bestas e Febre do Rato, neste como o poeta anárquico Zizo, ambos longas que lhe renderam prêmios em festivais nacionais. “Com Cláudio conheci um mundo do Recife que meu pai nunca me deixou ver, foi uma descoberta.”

São os personagens que lhe interessam, mesmo quando desvinculados do contexto mais habitual da arte, caso do Diogo Fraga de Tropa de Elite 2, inspirado no deputado carioca Marcelo Freixo. “Achei que havia algo importante a dizer ao público com esse papel.” Cauteloso, porém, não se lançou a essas experiências cinematográficas sem antes estar certo de poder rascunhá-las com calma, ensaio feito com uma atuação secundária em Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, sua estreia.

Desde esse início outro capricho de método se impôs. Santos procura instalar-se no universo que servirá de cenário. Para O Som ao Redor, mudou-se para o bairro de Setúbal, onde se passa a trama. Usou o mesmo recurso com a minissérie global, gravada na caatinga baiana, e passeou pelas feiras de Santo Amaro para o drama de Chico Teixeira. Ainda em São Paulo, foi a vez de a arquitetura se revelar a ele para o longa Obra, de Gregório Graziosi. Recentemente, integrou-se a novo cenário na vida real. Transferiu o baú para João Pessoa. Na terra de Suassuna, quer privar de uma cena teatral privilegiada, com grupos de forte tom circense como Piollin e Arlequin, e onde uma nova onda cinematográfica começa a se impor.

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