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Número 773,

Cultura

Música

Lou Reed por um dia

por Rosane Pavam publicado 04/11/2013 11h30, última modificação 04/11/2013 18h18
O público entendia como suas as histórias do rockstar. Por Rosane Pavam
Greg Wood / AFP
Lou Reed

Verve e vísceras. Reed bebia a poesia das ruas

A primeira banda surgiu depois do primeiro choque elétrico. Lewis Allan Reed tinha 17 anos, em 1959, quando seus pais concordaram com o tratamento então indicado a meninos que desejassem sexualmente outros. Reed descreveu essas dores em Kill Your Sons, de 1974. Logo depois do choque, ele contava, era chegar até a página 17 de um livro para logo retornar à primeira, esquecido do que leu. E isso acontecia com alguém para quem a literatura representava quase tudo.

Lou Reed morreu domingo 27, aos 71 anos, cinco meses depois de um transplante de fígado, como um poeta do rock. Ambicioso da palavra como a usara um William Burroughs, ele conciliava o intuito visceral com o discurso direto e a verve popular. “Sempre acreditei que se poderia falar seriamente numa letra de rock sem perder a batida”, disse uma vez. “Aquilo sobre o que escrevi não seria grande coisa se aparecesse em um livro ou um filme.”

Sua banda de relevo, Velvet Underground, arrastou a admiração de Andy Warhol nos anos 1960 e de David Bowie uma década depois, quando Reed deixara o grupo e estava na pior. John Cale, parceiro na criação do Velvet, disse que as letras do amigo nasciam de longos improvisos sobre seus atos da manhã ou sobre a vida testemunhada na rua. “Ele tinha o dom.”

Nada de hippies, nada de Grateful Dead. Ao abrir a porta ao punk, Lou Reed buscava outras eletricidades. Retomava, para a geração que perdera os Beatles, o segredo de sua importância. Cantava como quem discursava. E parecia tocar a guitarra para rasgar sentimentos. Mesmo na difícil fase instrumental, era ouvi-lo para querer dar o mesmo nó da arte nos problemas.

Às vezes uma de suas canções a partir de temas difíceis, a viagem ao vício ou a batalha do travesti, chegava ao rádio com sucesso. E todos entendiam, como o crítico Greg McLean, aquele dia perfeito na sua Nova York. O artista dava a quem o ouvia um sentido de comunhão jamais experimentado nas igrejas, nas escolas ou nas famílias. “Não sabíamos, mas esperávamos pelo homem que salvasse nossas vidas com rock-n’-roll”, escreveu McLean no encarte de uma coletânea de clássicos dos anos 1970. “Obrigado, Lou.”

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