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Número 773,

Saúde

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A falácia do cálcio

por Drauzio Varella publicado 03/11/2013 07h37, última modificação 03/11/2013 08h35
Não há garantias de que a suplementação com o mineral tenha benefício garantido. O melhor é obtê-lo pela alimentação. Por Drauzio Varella
Arte CartaCapital
Cálcio

"Hoje a morte está difícil. Tem recursos, tem asilo, tem remédios" Paulo Leminski

Prescrever cálcio com vitamina D para prevenir osteoporose e fraturas na menopausa é prática frequente. A literatura, no entanto, mostra que a interação entre cálcio, vitamina D e ossificação é complexa e pouco conhecida. Mais de 98% do cálcio fica armazenado no esqueleto, reservatório que retira ou libera cálcio na circulação, segundo as necessidades.

O cálcio exerce duas funções fisiológicas essenciais: transmitir mensagens no interior das células e conferir dureza e resistência à estrutura óssea. Como sua eliminação pela urina, fezes e suor é inevitável, a ingestão de quantidades insuficientes por períodos prolongados pode afetar diversos processos biológicos. Para mulheres de 19 a 50 anos e homens de 19 a 70, a dose diária recomendada é de mil miligramas por dia. Mulheres com mais de 50 anos e homens acima de 70 requerem 1,2 mil miligramas ao dia.

Cerca de 70% do cálcio presente na dieta da maioria dos adultos vem do leite e seus derivados. Uma xícara de leite ou uma fatia de queijo, por exemplo, contém cerca de 300 mg da substância; um copinho de iogurte natural, 450 mg. Vegetais como o brócolis, certos peixes, como sardinha e salmão, sucos e alimentos fortificados fornecem, em média, mais 300 mg de cálcio por dia.

A rigor, a suplementação só está justificada nos casos em que a quantidade ingerida é inferior às necessidades ­diárias. Afinal, o cálcio presente nos alimentos é absorvido com mais facilidade do que o dos suplementos. Estudos observacionais sugerem que o risco de fraturas aumenta quando a ingestão ­diária cai abaixo de 700 a 800 mg. Mas o benefício da suplementação em pessoas sem deficiência não está demonstrado.

As preparações mais comuns são as de carbonato e de citrato de cálcio. O carbonato contém 40% de cálcio elementar, deve ser tomado com as refeições, é mais barato e mais fácil de encontrar, mas eventualmente provoca obstipação e flatulência. O citrato contém 20% de cálcio elementar, pode ser administrado fora das refeições e causa menos desconforto abdominal.

Análises conjuntas (metanálises) de diversos estudos mostram que administrar cálcio provoca reduções inexpressivas do número de fraturas. A mais completa delas revelou diminuição de 12%, mas apenas em pessoas internadas em instituições para idosos. Além dos problemas digestivos, a suplementação aumenta o risco de cálculos renais. Quanto maiores as doses, maior o risco. Publicações recentes levantaram ainda a suspeita de que tal suplementação aumentaria o risco de arritmias cardíacas e infarto do miocárdio, por deposição de cálcio na parede das artérias. Os resultados, entretanto, são conflitantes.

Enquanto essas dúvidas não ficam esclarecidas, o ideal é oferecer através da alimentação as quantidades que o organismo necessita. A suplementação deve ser prescrita em doses mínimas, divididas em pelo menos duas tomadas diárias, somente nos casos em que a pessoa não consegue ingerir quantidades adequadas. Receitar cálcio indiscriminadamente não faz sentido.

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