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Número 772,

Internacional

França

O socialista e a xenofobia

por Wálter Maierovitch publicado 28/10/2013 05h29
Hollande ultrajou o lema da Revolução Francesa ao expulsar uma estudante de 15 anos e sua família do país
AFP
Hollande

Maioria dos cidadãos franceses foi favorável a expulsão e se mantém contrária ao retorno da adolescente Leonarda e sua família. E pior: isso acontece numa França presidida pelo socialista François Hollande

Na então filonazista França de Vichy, o lema da Revolução Francesa, “liberdade, igualdade e fraternidade”, foi substituído por “trabalho, família e pátria”, para não desagradar a Hitler. Agora, como ficará o lema revolucionário de 1789 após a expulsão da menor Leonarda Dibrani da França e da escola André Malraux, da cidade de Levier? O que fazer, no berço do Iluminismo, com o princípio republicano de não se tocar na escola e nos alunos?

Não bastasse, isso acontece numa França presidida pelo socialista François Hollande. Mas dois em cada três cidadãos franceses mantêm postura xenófoba, ou melhor, a maioria foi favorável à expulsão e se mantém contrária ao retorno da adolescente de 15 anos e sua família. Pior: a irmã mais nova de Leonarda tem apenas 17 meses e nasceu na França.

Em 9 de outubro, policiais interromperam, próximo à escola André Malraux, o curso do ônibus que transportava alunos em retorno de um passeio escolar. Diante de seus colegas, Leonarda foi retirada do veículo. Nascida na cidade italiana de Fano e de etnia rom, acabou despachada de avião com a mãe e os irmãos para a cidade kosovar de Mitrovica. A propósito, Leonarda e os irmãos não falam nem albanês nem romanês, línguas correntes no ex-enclave sérvio e atual Estado do Kosovo.

Para Manuel Valls, ministro do Interior francês, a expulsão de Leonarda foi legítima e legal. Segundo Valls, a família de Leo-
narda teve o pedido de asilo político negado e sete recursos de inconformismo interpostos restaram indeferidos. Nascido na espanhola Barcelona, Valls mostra-se, na pasta da Segurança Pública, um cultor dos mesmos métodos populistas e violentos do direitista Nicolas Sarkozy.

Quando Sarkozy esteve à frente da pasta, notabilizou-se por autorizar a tropa de choque da polícia a atacar os filhos de imigrantes nascidos na França em meio a  protestos por igualdade. O Ministério do Interior, cabe ressaltar, serviu de trampolim para Sarkozy galgar a Presidência.

A expulsão de Leonarda revoltou profundamente a autêntica esquerda francesa e estudantes progressistas. Por todo o país, as manifestações multiplicaram-se. Só em Paris, 6 mil saíram em passeata e a lembrar que Leonarda tinha cinco anos de residência na França e frequentava há mais de três anos a escola.

Diante da pressão, Hollande saiu-se com uma decisão mais hipócrita do que salomônica. O presidente avisou que Leo-
narda poderia voltar, mas sozinha. Sem poder levar a família, o convite foi recusado. A decisão de Hollande foi contestada por Valls, que reiterou não haver possibilidade legal para o retorno de Leonarda.

Hollande mantém o discurso da legalidade da expulsão, mas admite ter havido erro estratégico ao tirar de um ônibus escolar uma adolescente a ser expulsa do país. Até agora não demitiu o populista Valls, um daqueles tipos bem conhecidos que, sem rebuços, transitam da esquerda para a direita. De quebra, Valls flerta com a sempre sabuja gauche-caviar, liderada por Bernard-Henri Lévy, filósofo e empresário. Ele o orientou nos ataques à Líbia e pressionou para bombardear a Síria.

No primeiro fim de semana em Mitrovica, Leonarda e os pais foram agredidos e ameaçados de morte. O motivo é conhecido: são considerados traidores os que não estavam no então enclave de Kosovo durante a resistência à limpeza étnica promovida pelas forças sérvias.

O vacilante Hollande, cujo governo ainda não caiu no agrado dos franceses, cogita propor o retorno da família de Leonarda, com exceção do pai. De toda maneira, terá a oposição de Valls, sempre de olho nas pesquisas de opinião.

Ao contrário da França, foi considerada positiva a decisão das autoridades italianas de recusar o sepultamento, em cemitério romano, do recém-falecido capitão nazista Erich Priebke. Ele comandou, na periférica Via Ardeatina, o fuzilamento de 335 civis residentes na cidade. Contou com o aval de Herbert Kappler, chefe da Gestapo nos nove meses de ocupação nazista de Roma. Uma chacina em vingança ao ataque que causou a morte de 33 militares alemães.

Priebke, condenado à prisão perpétua na Itália, morreu aos 100 anos de idade. Nunca revelou arrependimento. O enterro foi autorizado em Albano, região do Lácio e onde o corpo, com forte presença de grupos europeus neonazistas, recebeu acolhimento da comunidade Pio X de lefebvrianos. Diante da revolta dos moradores de Albano, o capitão ficou insepulto por dias. Até que o governo, diante do advogado dos dois filhos do falecido, colocou três propostas: cremação com entrega das cinzas fora da Itália, envio do corpo para a Alemanha ou enterro em sepultura oculta em solo italiano, tudo para evitar venerações por nostálgicos do nazismo e do fascismo.